O Saci e o santo
(será o Benedito?)


(Ditão Virgílio)

Noite de tempestade e ventania
Os gomos do taquaruçu zunia
Dando tiro na escuridão
Centenas de Sacis nasceram
Do gomo da taquara desceram
Fazendo um barulhão

2
Com o gorro equilibrado
No seu coquinho pelado
Procurando reinação
Com o pito aceso na boca
Olhos espertos e loucos
Para pôr o pé no chão

3
O último que saiu
Um cavalo ele já viu
E no seu lombo pulou
O cavalo assustado
Varava o pasto disparado
Até uma cerca ele saltou

4
O coisinha preta em cima
Fez trança na sua crina
E dele não desgrudou
Na fazenda a criançada
Ouviu o assobio e a risada
E desse jeito gritou:

“Saci Perêrê de uma perna só
Tá querendo pitar
No cachimbo da vovó”

5
Ele deixou seus irmãos
Perna só e duas mãos
Arte fazendo sozinho
Assustou os viajantes
Pediu fogo num instante
Para acender seu pitinho

6
Fez o leite derramar
Quando aconteceu de passar
No fogão devagarinho
Pipoca virou piruá
No ninho começou a xingar
Gorou os ovos da galinha

7
Pôs lenha para queimar
Fez o feijão esturricar
Numa passada que deu
E um pouco mais depois
Jogou areia no arroz
E a panela se perdeu

8
Colocou sal no café
E passando o seu pé
Até a carne fedeu
Encheu de pimenta o frango
Caipira perdeu o rango
Pois sua boca ardeu

9
Das aves a pena arrancou
Na encruzilhada dançou
No sábado de aleluia
Um homem furava a canga
Ele enroscou a manga
Quebrou o arco da pua

10
Por três horas bico calado
Para agir de madrugada
Ficou namorando a lua
A mulher não acreditou
Do Saci ela zombou
E ele deixou ela nua

11
No trabalho entrou no meio
Para o dono dizer nome feio
A ferramenta ele escondeu
Deixou o caipira sem rumo
Pois gastou todo seu fumo
De cinza o cachimbo encheu

12
No monjolo de farinha
Perêrê chegou de mansinho
Perto de um homem escondeu
Com um monte de brasa na mão
Jogou em cima dele então
E rindo desapareceu

13
Um negro cheio de mandinga
Cuidava do alambique de pinga
Para a turma não abusar
O crioulinho chegava
Fumaça do cachimbo tirava
Mas não conseguia tragar

14
O homem não ligava
Mas enquanto cochilava
O Saci já foi aprontar
De brasa encheu seu pito
Na bota jogou e deu um grito
Só pra ver o negro pular

15
Arteiro que não se cansa
Brincando com as criança
Contra elas nada fazia
E na moita em que ficava
Em cabriolas pulava
É só isso que ele queria

16
Girava no rodamoinho
Poeira ia e vinha
No vento que até chia
Saltando pra todo lado
Alegrando a criançada
Igual aos passarinhos pia

17
Pra pegá-lo num segundo
Peneira com cruz no fundo
E no vento ele é prendido
É só o gorro dele tirar
E um pedido falar
E na hora é atendido

18
Um dia um homem prendeu
E um palácio ele deu
Para conseguir se soltar
Quando solto foi embora
Não foi benzido e na hora
O palácio foi pro ar

19
Numa ponte foi morar
Para as pessoas assombrar
Assobiava e dava grito
Jogava pedra nas costas
Se não desse o que ele gosta
Que é fumo para seu pito

20
Um dia foi acusado
Na ponte foi pendurado
Cometeu grande delito
Sete anos condenado
Brincou com o santo errado
“Será o Benedito?”



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