O Saci esteve aqui
O SACI ESTEVE AQUI
(Álvaro N. de Paula – 1987)
Ó gente lá de casa. O Saci esteve aqui.
O que ele contou, deu tristeza de ouvir.
O negrinho, coitado, chegou tremendo, todo assustado
Veio de avião com um árabe fanático sentado ao seu lado.
Pensou que o seu dia tinha chegado. Mas se acomodou
Pois dei-lhe uma boa pinga, e isso o acalmou.
Logo depois, porém, pobre capetinha, se deu a lamentar
Estava tão desolado. A ponto de chorar.
Pensativo o olhava -- aquela legenda do meu passado
Não podia me conformar -- ver o alegre pernetinha assim perturbado.
Mas com outra pinguinha se sossegou.
E cheio de coragem sua mágoa desabafou.
No Brasil, caro irmão, só se vê contradição
O governo constrói usina atômica. O pobre pede pão.
Tanto imposto é arrecadado
Contudo o país vive quebrado.
O cruzeiro, vítima da inflação, foi vestido de cruzado
O consumidor, no entanto, continua crucificado.
Quem vive bem é tubarão
O povo tem que se virar para poder comer feijão.
Tudo de bom é mandado para o exterior
Do dinheiro recebido o brasileiro nem vê a cor.
Há tanta comida. Riquezas. Que abundância!
Mas é tudo controlado pela mão da ganância.
A criança pobre, vítima de sua pobreza e da ignorância
Pequena já trabalha -- desconhecendo a doçura da infância.
O preto, o suor de seu passado ignorado, não tem vez
Não estava tão pior quando escravo do português.
E o índio, pelos poetas venerado.
Leva uma vida de condenado.
O oportunista com eloqüência ladra sua demagogia.
Enganando as massas mascarado de democracia.
O povo vive num estado de ilusão
Iludido por promessa de político, e sujeito a uma corja de ladrão
O país está enterrado. Todo endividado com banco estrangeiro.
Bilhões de dólares! E nem se sabe onde foi parar todo esse dinheiro.
A floresta, pouco a pouco vai tombando
Um progresso ilusório seu encanto está roubando.
Nossa flora, nossa fauna, está morrendo
O que não morre o contrabandista está vendendo.
Poluição. Falta de visão. Exploração e
corrupção
Varre o país com suas garras de destruição.
Nossa identidade, música, cozinha, língua e tradição
Estão adulterando com produto de importação.
Temos que abrir os olhos! Encarar a realidade
Deixar o mundo da fantasia -- entrar o mundo da verdade.
Devemos preservar nossa cultura! Nossa singularidade
Nunca esquecer nosso valor -- nossa doce humanidade.
Em Brasília estão redigindo uma nova Constituição
Uma carta de deveres que garante direitos e proteção.
Mas temos que apoiá-la com patriotismo e devoção
Não podemos abandonar esta grande nação.
Não é crime ser pacífico, tolerante e bem-humorado
Mas é crime testemunhar injustiça e ficar calado.
Enfim, caro amigo, me perdoe a emoção
Tinha que abrir a boca. Desafogar o coração.
Proteger o Brasil é dever de todo brasileiro
Contra todo e qualquer usurpador. Nacional ou estrangeiro.
Nosso passado é um passado de luta, sacrifício, e glória
Não podemos desapontar os Vultos de nossa história.
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