O Batizado


(Ditão Virgílio)

No brejo sei onde fica
Onde cai água da bica
Tem um pé de jacarandá
Lá na porteira da toca
Na touceira de taquarapoca
Que usa pra fazer jacá

Eu estava vindo da cidade
Estou falando a verdade
A porteira abriu sozinha
Eu senti um calafrio
Nos cabelos um arrepio
Quando ouvi um chorinho

Passei quase voando
Parecia que levitando
No corpo sentia espinho
A coruja até piou
O curiango gritou
Mas eu estava sozinho

Com o seu vôo bem franco
A grande coruja branca
Que se chama suindara
Com seu piado tão triste
Outro igual não existe
Parece rasgar mortalha

Até os bichos escondidos
Soltavam um triste gemido
Lá no meio do mato
Gritando pra mim: “Não pára,
Pois o pio da suindara
Paralisa até os ratos”

O choro continuava
A criança que chorava
Aquela noite sem parar
Durou poucos segundos
Ficou vagando no mundo
Pois morreu sem batizar

Homem e mulher casados
Não podem ser juntados
Muito menos ateus
Chamando o “nome do pai”
De joelho na terra cai
Batiza em nome de Deus

Eu que estava sozinho
Lá no meio do caminho
Me sentindo muito mal
Assim que eu escutei
Mais um pouco arrepiei
O canto do urutau

É um mau agouro puro
Este pássaro do escuro
Reclamando sua sorte
Diz não ter mãe nem pai
Sozinho no mundo vai
Até encontrar com a morte

Em seguida eu notei
E bem longe avistei
Vindo da banda de lá
Uma luz igual lamparina
Bem no morro lá em cima
Era o tal de Boitatá

O fogo da podridão
Veio em minha direção
Tentando se aproximar
Quanto mais pra ele se olha
Mais aumenta o fogo da bola
E ele quer se alimentar

Mas de repente lá do morro
Juro, gritei por socorro,
Era um estrondo de pilão
Que se escutava rodando
Lá do barranco rolando
Fazendo um barulhão

Caiu bem à minha frente
Era um monstro feito gente
Que foi rolando no chão
Meio cachorro meio homem
Era mesmo lobisomem
Que rodou pelo grotão

Um clarão riscou o espaço
Como uma flecha de aço
Vi a grande pedra rachar
Então apareceu uma loura
A encantada Mãe de Ouro
Me convidou para entrar

Dizendo ter um castelo
De ouro todo amarelo
Pra mim com ela ir morar
Disse: “Não sei se quero
Ir pra esse mundo paralelo
tenho muito que pensar”

Quando estava indo embora
Me falou que qualquer hora
Ela vem pra me levar
Falando “Não tenha medo,
é só cortar seu dedo
e o sangue em mim jogar

Vai quebrar o meu encanto
Terá ouro por todo canto
E um rei se tornará
Me terás eternamente
Mas bote em sua mente
Que pra aqui não voltará”

Andei mais uns cem metros
Os bichos todos quietos
Quando saiu detrás de um cepo
Um barulho estalando
Perto de mim foi chegando
Dizendo: “Sou corpo seco

Eu fui grande fazendeiro
Desse mato sou herdeiro
Mas fui muito cruel
Há muito tempo morri
Mas continuei por aqui
Perdi o inferno e o céu”

Mas que danado de azar
Eu comecei a rezar
Pra que mais nada apareça
Ouvi um rinchado distante
Chegou perto num instante
Era a mula-sem-cabeça

Puxei a blusa no punho
Escondi o olhar e a unha
Para o brilho ela não ver
Não refletiu quase nada
Voltou a galope pra estrada
Pensei que eu ia morrer

Nisto o galo cantou
Toda a força voltou
E em minha casa cheguei
A chave na porta pus
Alguém acendeu a luz
Disseram que desmaiei

Dormi toda a madrugada
E depois de ter acordado
A minha história contei
Quase morri de susto
E foi com muito custo
Que lembrava o que passei

Um casal tinha escutado
E ficara paralisado
Ouvindo a criança chorar
Me disseram então
Que aquele menino pagão
Eles queriam batizar

Logo quando escureceu
E aquele choro apareceu
A coruja piou de espanto
E aquilo foi o aviso
Disseram “Eu te batizo
Em nome do Espírito Santo”

Nisto surgiu um negrinho
Dando muitos pulinhos
Com o olho arregalado
Dizendo “Te enganei
Pois fui eu quem chorei
E agora estou batizado

Posso fazer o que quero
Até nas rezas mais sérias
Também serei respeitado
De morar no taquaruçu
E ser um Saci comum
Eu já estava enjoado

Eu já não fujo da luz
Pode gritar ‘credo em cruz’
Que sumir eu não vou mais
Pode trazer teus rosários
E todos os relicários
Não vou te deixar em paz

Às vezes você me atrapalha
Me amarra com três nós de palha
Para um objeto encontrar
Agora fique esperto
Se não fizer tudo certo
Sou eu que vou te amarrar

Pode falar pra vovó
Pra ela não ficar só
No cachimbo a pitar
Sua reza já não espanta
Hoje na hora da janta
Brasa nela eu vou jogar

Na hora da Ave Maria
Se o nome da santa dizia
Eu tinha que me mandar
Vou aparecer de repente
E vou ficar bem na frente
Somente pra te assombrar

Pode rezar três Pai Nosso
Que na Quaresma não posso
Na encruzilhada passar
Não adianta mais nada
Vai estar acompanhado
Do seu lado eu vou estar

Agora ninguém me segura
No buraco da fechadura
Eu entro feito fumaça
Se mistura pólvora e fumo
Pensando que dali sumo
Eu apronto outra pirraça

Ponho urina na pinga
Quebro sua mandinga
Agora sou eu que caço
Sou benzido e adivinho
E boto meu narizinho
Não caio mais no embaraço

Quem jogar a peneira
Vai fazer uma besteira
No rodamoinho que faço
De nada vai adiantar
Na garrafa não vou entrar
Pelos furinhos eu passo

Com o terço quer me laçar
Não consegue me pegar
Dentro do rodamoinho
Meu canto é pra confundir
Pois ave vira Saci
Em forma de passarinho

Só com uma coisa me espanto
Que vai quebrar meu encanto
E à toda eu fujo a cavalo
Eu só respeito quem viu
E no Natal assistiu
À santa Missa do Galo


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