Outros amigos do Saci
Lobisomem
Caboclo opilado, extremamente descorado, ressequido e de sombrio aspecto, produto do sétimo parto, às sextas-feiras, à meia-noite, procura os galinheiros, onde se esponja nas fezes e se alimenta das mesmas, metamorfoseando-se em um grande cão de enormes orelhas pendentes, que estralam no calor da carreira na qual sai o desgraçado para percorrer sete bairros antes do nascer do sol, em cumprimento ao seu triste fadário.
Se mulher, transforma-se em uma bruxa ou uma grande e bravia porca acompanhada de sete leitões e sai, estrada afora, a atacar os retardatários forasteiros. Quem for ferido das agudas presas do duende, terá o mesmo fadário; quem, porém, a ferir derramando-lhe o sangue porá fim a sua triste sina.
Narra a lenda que sendo uma mulher casada com um lobisomem, só lhe soube a sina quando, certa noite, despertou sobressaltada com um enorme cão dentro do quarto. Gritou apavorada para o marido que julgava a dormir e o cão, enfurecido, atacou-a esfacelando-lhe a dentadas, a saia de baeta vermelha que vestia. Na manhã seguinte, ao surpreender entre os dentes do marido filamentos de lã de sua saia, compreendeu horrorizada o desgraçado destino, abandonou-o e levou o resto da vida a
Mãe D'água
Também denominada de a 'mãe-d'água'. Moça bonita, de cabelos demasiadamente longos, que sempre mora numa fonte em centro de mata.
Vez por outra, nas horas mortas da noite, especialmente em noite de luar, canta.
Diz que duma voz tão boa, bonita e tocante que o homem que a ouve morre de paixão por ela.Não se entende nada de suas cantigas porque canta em língua de índio. Se uma mãe-d'água por acaso um dia morre, sua fonte seca.
Mula sem cabeça
Mula mesmo, sem cabeça, negra, com uma cruz de cabelos brancos.Tem um facho luminoso na ponta da cauda. Mata quem encontra a coices. Desencantada, é uma linda mulher nua, que tem amores criminosos ou que teve relações com um padre. Mito geral no Brasil.
Concubinas de clérigos transformam-se em Mula-sem-cabeça. Quem tiver a desdita de encontrá-lo, ouvindo-lhes o silvo tétrico e estridente, deve ocultar as unhas que para elas têm extraordinário brilho e as atraem.
Boto
Peixe do Rio Amazonas, transmudado em homem, e tido por incorrigível conquistador de mulheres. Torna-se caboclo alegre, forte e grande amigo de danças. Sempre, porém, de chapéu na cabeça, para que não vejam o orifício por onde respira. Na qualidade de boto, assalta as canoas que têm mulheres grávidas. É considerado o pai de muitas crianças que nascem por aquelas regiões amazônicas.
Cobra Norato
É um rapaz, Honorato, que se encanta numa serpente.Por vezes, solta a carapaça, que o cobre, e mete-se em festa. De madrugada, porém, volta ao suplício.Aparece no Pará.
Alamao
É o vulto branco de mulher linda, nua, loura, que aparece a dançar na praia, iluminada pelos relâmpagos de tempestade próxima. Reside em um dos picos da ilha, para onde leva os homens que se apaixonam por ela. Aí transforma-se em caveira. Na ilha de Fernando de Noronha.
Alma do padre aranha
Assombração de rancho e encruzilhada, que surrava tropeiros vadios. Se deixavam uma correia largada no chão esta começava a dobrar e dava-lhes uma surra. Se largavam à toa algum cambito de arrocho, era o pau que roncava nos seus lombos. Corrente em São Paulo.
Cabeça de cuia
É um homem alto, magro, com grande cabeleira sobre a cabeça em forma de cuia. Devora de sete em sete anos uma mulher chamada Maria e também meninos que nadam no rio. Torna-se terrível nas noites de sextas-feiras. No rio Parnaíba, Piauí.
Canoa fantasma
É uma canoa na qual se acham as almas dos bandeirantes, que morreram afogados. As almas surgem nas margens do rio Tietê, embarcam na canoa e descem o rio. O objetivo delas é saber notícias dos parentes e procurar tesouros perdidos. Aparecem ao amanhecer.
Capela de Bom Jesus
No começo da colonização, atraído pelo ouro de Minas, um rapaz de Portugal, resolveu vir para o Brasil, para ganhar algum dinheiro e ficar rico. Quando estava partindo, sua mãe chorou muito e lhe deu de presente uma pequena imagem do senhor Bom Jesus, para protegê-lo. O filho guardou a imagem e jurou para a mãe que, assim que tivesse dinheiro, iria construir uma capela para o santo. Chegando a Ouro Preto, o rapaz, garimpando, conseguiu achar muito ouro. Vendeu o ouro e começou a ter muito dinheiro, mas gastava tudo e se esqueceu da promessa. Ele acabou gastando todo o dinheiro e ficou tão doente que nem tinha forças para trabalhar. Certa noite, encontrou uma pessoa bem vestida que o convidou a visitar lugares onde tinha muita bebida e muitas mulheres. Depois de algumas horas nessa alegre companhia, o desconhecido mostrou-lhe os pés de pato: era o diabo em pessoa. Esse queria a alma do moço, e em troca lhe daria 20 anos de saúde, amores e riquezas. O rapaz aceitou a proposta. Depois disso viveu 20 anos muito rico e feliz, que até acabou esquecendo do trato que fez com o diabo. Mas este, na véspera do dia marcado para o levar, avisou-o de que se aprontasse para o dia seguinte. O rapaz assustou-se e tratou de ganhar tempo e disse ao Diabo que antes do trato tinha jurado construir uma capela para o senhor Bom Jesus. Este construiu com rapidez uma capelinha no primeiro terreno baldio que encontrou. O português correu à casa e voltou com a imagem do Bom Jesus apertada ao coração e xingando o Diabo. Este, desesperado, ficou furioso e ia destruir a capela quando o rapaz deu um salto para dentro dela e colocou o Bom Jesus no altar, perdendo o demônio a posse da construção. O rapaz arrependeu-se da vida que levara até ali e entrou no caminho da penitência, dormindo na pedra fria do chão da capelinha. Foi zelador da igreja durante os muitos anos que ainda viveu.
Famaleal
Diabinho minúsculo, que se guarda dentro de uma garrafa. Quem possui o Famaleal enriquece milagrosamente, mas tem que pagar com sangue todas as sextas-feiras, os juros da preciosa relíquia. É preto e tem pés de pato. Nasce do ovo de franga preta, chocado embaixo dos braços. Conhecido em Minas Gerais.
Foguinho da ladeira
Na Ladeira-da-Peitica, município de Picos-PI, vez por outra, especialmente em véspera de inverno bom, dá de aparecer um fogo misterioso. Apaga-se aqui, reaparece ali na frente no mesmo instante. Diz o povo que é um carneiro de ouro, encantado, o qual mora num palácio (também encantado), dentro da Pedra Grande da Serra da Atalaia. E se um dia uma pessoa tiver a sorte de desencantar o tal carneiro, não será pobre mais nunca, porque o mesmo é do puro ouro do melhor quilate.
Princesa de Jericoacoara
É uma princesa que mora em uma gruta, cheia de riquezas. Está transformada em serpente, com a cabeça e pés femininos, coberta de escamas de ouro. Só poderá ser desencantada com sangue humano, fazendo-se uma cruz sobre o seu dorso. Aí, ao lado da princesa, aparecerão tesouros e maravilhas da cidade onde ela mora. No Ceará, praia de Jericoacoara.
Porca de Sete Leitões
Na versão paulista, é uma porca que vive com seus sete leitõezinhos, andando pra lá e pra cá. Era uma rainha que possuía sete filhos e que foram com ela transformados no que são agora, por vingança de um feiticeiro. Transformada em porca, muito alva, solta fogo pelos olhos, nariz e boca.Vive perto dos cruzeiros de estrada.
Pai do mato
Homem de pé de cabra e corpo cheio de pelos. Mãos semelhantes a dos macacos. Barbicha. Cor escura, idêntica a do porco do mato enlameado. Anda no bando desses porcos, cavalgando o maior. É apenas mortal no umbigo e tem urina azul. Raramente aparece ao homem. Mito de Goiás.
Mulher do algodão
Mulher loura, alta e alva, que vestida de branco, e com algodão em sua boca, nariz e ouvidos, assombra as crianças que encabulam aulas, e também à transeuntes em praças, jardins e parques. Não faz mal à ninguém. No interior de São Paulo.
Curaganga Cumaganga
É a sétima filha de um casal. A cabeça lhe sai do corpo, à noite, em forma de bola de fogo e gira à toa pelos campos. Pode aparecer em cima de árvores e bater na porta das casas. Ataca às dentadas. No Maranhão e Pará.
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