A moita e o tangará
Tem gente que diz que não existe Saci, baseado apenas no fato de não conhecer ninguém que viu (quanta coisa que nunca apareceu e a multidão acredita!). Mas essas pessoas não param pra pensar que há muitas razões hoje em dia que reduzem as chances de aparecer Saci, o que não implica em sua inexistência.
Primeiro, quase todo mundo se mudou para as cidades, que é onde Sacis não vão de jeito nenhum. Pros que ficaram no meio rural, as queimadas e as motoserras estão acabando com todo o mato para abrir espaço às pastagens, acabando com os capões na beira de riachos e as clareiras ensombradas, notórios abrigos do passaredo e da sacizada.
Eu sei disso por experiência própria. Na fazenda onde me criei (me criaram, propriamente dito), tinha mato fechado, tinha capão de mato, tinha mata rala e tinha um riozinho que atravessava nossa terra, o trecho todo protegido por um teto de copas de altas árvores que se fechavam lá em cima.
Como se sabe (na verdade, há quem saiba e quem não sabe), Sacis gostam de sombra. Dizem que eles se escondem na mata que é para não serem avistados. É também por isso, mas o motivo principal é simplesmente porque eles gostam muito do frescor da floresta e do canto da passarada, que é lá onde habitam.
Foi ali que vi meu primeiro Saci.
Lá em casa a gente era obrigado a deitar depois do almoço. Terminávamos o doce e tínhamos que marchar para os quartos, sestear. Com os postigos fechados, o quarto ficava feito noite se não havia alguma fresta ou buraco de cupim a filtrar um risco de sol no pó flutuante. Há tortura maior que fazer criança ficar deitada em silêncio pros adultos sestearem? Duvido. Ficávamos, meus irmãos e primos esperando a casa de aquietar. Fugíamos dos quartos quando ouvíamos o ronco no quarto dos velhos.
Lá fora a unidade de propósitos se desfazia. Mariel puxava as meninas ao pomar, comer as frutas destinadas aos doces de tacho e vedadas a nós na forma natural. Sabe-se lá confiada em quê, minha prima afirmava que os Sacis tinham o mesmo paladar que ela e algum dia ainda iria encontrá-los empoleirados em um pessegueiro. Já Renato e os meninos preferiam sair a campo aberto para pegar cavalos e montá-los em pêlo, feito índio de fita de faroeste, como prova de maestria e coragem. A tese de meu irmão (ele sempre tinha uma tese) era de que era mais fácil encontrar Saci junto à cavalhada, fazendo molecagem com os animais, amarrando as caudas como que pra passeio em dia santo. Era montar nos mais velozes e ficar à espera de que, sem mais nem menos, algum bagual saísse corcoveando ou prorrompesse em disparada coxilha acima. O jogo começava então, com dois valentes a apertar o bagual enlouquecido pelos flancos e jogar-lhe sobre o lombo um pano pesado, porque ali, sem dúvida, havia um Saci. Em tese.
Eu preferia sair sozinho, a buscar o silêncio e o frescor de uma clareira à beira do arroio. Disse silêncio mas falei mal, porque essa era a hora em que as cigarras cantavam tudo o que sabiam e ainda improvisavam outro tanto. Era ali que eu gostava de ficar, às vezes com os pés na água fresca, às vezes deitado junto a uma moita, pensando bobagens.
Pois foi nesse rincão que me apareceu o Saci desse meu causo . Aliás, apareceu, não; quem apareceu fui eu, porque ele já estava na minha moita. Fiquei parado em meio a um passo que ia completar, como que em brincadeira de mandraque, com medo de fazer ruído e espantar o bichinho. Ele, quietinho lá na moita, como quem dorme, e eu aqui, perna suspensa na caminhada interrompida já me formigando pela má posição. Foi quando me apoiei num tronco fino pra me ajeitar que o Saci me olhou. Assim mesmo. Virou a cabeça, me olhou firme nos olhos e ergueu um dedinho pra me impor silêncio. Eu estava surpreso por ter encontrado o primeiro Saci de minha vida – e ainda não conhecia ninguém que tivesse visto um e duvidava das histórias de nosso peão Atillano – e ainda me sobreveio mais essa do Saci me mandar ficar em silêncio! Mas como alma de criança agüenta tudo, o inusitado se fez normal naquele instante porque o Sacizinho me indicou o porquê do imperativo: o canto das cigarras atraíra um tangará, não sei se pra cantar com aquele coro, ou para alimentar-se dele. O fato é que nesse momento o bichinho estava cantando e era por isso que o Saci dera por ali.
Ficamos nós, não sei que tempo, parados à distância, atentos ao canto comprido do tangará, que parece uma melodia inteira, à catraca das cigarras, ao murmúrio do rio, ao chocalhar das copas das árvores tocadas pelo vento. Quando acabou a música e o passarinho se foi, permanecemos ainda um tanto suspensos na ponta da melodia. Então um galho seco caiu, uma ovelha baliu e o Sacizinho rompeu a magia e partiu saltitante, um olho na trilha e outro em mim, acho que para cuidar se eu não iria dar-lhe o bote.
Continuei voltando àquele recanto, que era meu sítio secreto, mas nunca mais Saci nenhum voltou ali. E, coincidência ou não, tampouco o tangará, embora meu irmão e seu Atillano insistam em dizer que os tangarás foram extintos por aqui há muitos e muitos anos. Mas pra mim, que já vi até Saci, vai dizer que não tem tangará? Ora, tenha paciência e bota essa cachola a funcionar: tá na cara que foi o Saci quem trouxe. Vai lá procurar e logo aparece algum malvado com gaiola quebrada reclamando que lhe roubaram o passarinho.
São Luiz do Paraitinga, SP, 1°/11/ 2003, primeiro Dia do Saci.
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