O Saci de Ilhabela


Daniel Brazil


Quem parte do Vale do Paraíba, berço dos Sacis, atravessa a Serra do Mar e desce em direção ao litoral, nota que aquelas matas, hoje muito devastadas, formam uma mancha verde contínua até encontrar o Atlântico. Assim, relatos de Sacis avistados no litoral pelos caiçaras, de S. Vicente até Paraty, eram comuns na primeira metade do século XX. Com o avanço da civilização, abriram-se novas estradas, chegou a televisão e a poluição ambiental, e o simpático unípede foi rareando, beirando a extinção.


Mas nas áreas preservadas, nas proximidades das grandes touceiras de bambu, ainda é possível encontrar sinais evidentes de sua presença. Eu mesmo avistei um Sacizinho, ainda filhote, na beira do rio Taquaribu, em Juquehy, numa noite de lua cheia, por volta de 1993. O danadinho estava agachado junto a uma pedra, à beira d’água, e enfiava o braço dentro d’água tentando pegar pitus com uma peneira de plástico que havia sumido há vários dias da casa onde eu estava hospedado. Quando me aproximei, ele deu um pulo e sumiu no meio do mato, em uma fração de segundo, deixando pra trás a prova do crime. Havíamos procurado por toda parte, mas quando contei, na manhã seguinte, que havia encontrado a tal peneira na beira do rio, todos concordaram que só podia ser coisa de Saci. Até meu sobrinho, de seis anos, tido como principal suspeito e que jurava não acreditar em Sacis, concordou rapidamente, com os olhinhos brilhando: Sim, claro que foi o Saci que pegou a peneira!


Contando essa e outras histórias, falando da Sosaci, e da Festa do Saci que fizemos no Jajabar, lá no Butantã, em São Paulo, passamos o Ano Novo de 2004 em Ilhabela, na casa da tia Adelaide. Casa bonita, cercada de mato, recém inaugurada. Ela começou a contar coisas estranhas que aconteceram durante a construção. Os pedreiros juravam que nunca tinham visto sumir tanta coisa numa obra: martelos, pregos, parafusos, alicates, tudo sumia por dias seguidos, reaparecendo nos lugares mais improváveis: em cima de uma árvore, debaixo de uma pedra, sob uma pilha de telhas. E o rolo de arame, que apareceu todo retorcido?


As pessoas reunidas na varanda, passaram a rememorar vários incidentes daqueles dias: chaves desaparecidas, pneus esvaziados, um sapo no banheiro, palitos queimados dentro da caixa de fósforo, a cortina de sisal toda embaraçada... Só podia ser Saci!


Com o friozinho da madrugada, recolhemos as garrafas e a viola, entramos para um último gole de café e foi aí que meu coração quase parou de susto. Primeiro a entrar na cozinha, com a luz apagada, vi o retângulo da luz da lua refletido no chão e a silhueta inconfundível do Saci, espiando. Dei um grito, tia Adelaide – que vinha atrás de mim – entrou correndo e ainda viu o bichinho se escafedendo. Os outros só viram as sombras da bananeira, agitada pelo vento, recortadas pela lua.

Desde então, tia Adelaide passou a deixar no quintal umas espigas de milho verde, alimento predileto de Saci depois de broto de bambu. E recentemente, quando a Sabesp disse que só podia regularizar o encanamento se a rua, ainda de terra, tivesse um nome oficial, fez questão de batizá-la como Travessa do Saci. Pode conferir!

 

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