Sacis de Jacutinga


Paulo Pepe*


Nasci e fui criado em Rio Claro, interior de São Paulo. Na minha infância corríamos, pela década de 70, rodando pião,empinando pipa, chutando lata. Minha cidade já não era rural, mas morava em um bairro periférico, com muita mata nos arredores, um horto vasto e profundo para meus olhos de garoto. Mas a luz elétrica, que lá já estava, havia espantado os seres da mata para longe.Era o que ouvia os velhos dizerem.

O relato que farei se passa no sítio de meus avós, em Jacutinga, uma área próxima a cidade.

Costumava ir muito ao sítio, nunca para longas temporadas, mas sempre com breves e intensas experiências. A casa em que moravam era simples e espaçosa, como de resto eram todas as casas da época.Pé direito altíssimo, sem forro, com piso de cimento queimado vermelho, cômodos grandes e despojados, ar, muito ar pela casa. O entorno era lindo!A cana do Proalcool ainda não havia seduzido a região e as plantações variadas se integravam a ainda extensa mata nativa existente. Uma pequena olaria fazia a divisa com um bambuzal à direita e com uma área de mata à esquerda, que eu chamava de Florestinha, um lugar que eu adorava ir por conta da pequena queda d’água que buscávamos nos dias modorrentos de verão.

Bom, num desses dias muito quentes, em que até o vento tem preguiça de se mover, eu curtia o pós-almoço (uma galinhada...) fazendo o quilo, como vovó dizia, amesedado na cozinha com as duas cachorras do sítio enroladas no meu pé. Chulica e Chulica (acreditem, era assim mesmo, as duas com o mesmo nome!) dormitavam, estalando as orelhas levemente para espantar os pequenos mosquitos-pólvora que dançavam um minueto sobre suas cabeças.


Foi nesse momento que ouvi, não longe dali, um trinado, um assobio, som novo para mim! Eu, garoto que brincava pela rua, dominava todas as variações de assobio. Indicador e polegar, polegar e médio, língua entre os dentes e até o “prato de resistência”, os dois mínimos formando um pequeno vale nos lábios.Mas aquele assobio, nunca ouvira...


Chulica e Chulica puseram-se em pé, erguendo as orelhas e rosnando baixinho. Silêncio. Segundos depois mais um forte assobio! Não tive dúvidas: meti os dedos mínimos na boca e soprei forte! Chulica assustou-se, enquanto Chulica, imóvel, continuou rosnando baixo. Ato contínuo ao meu assobio um outro lá fora: alto, cristalino.Empurrei a cadeira e saí para o pátio de secar café, seguido de perto pelas cadelinhas.


Vi que, ao contrário de minutos atrás, ventava muito, uma poeira fina e vermelha varria o pátio. Nesse instante ouvi Açúcar, a égua branca e doce (!) de vovô, relinchando nervosa. Corri para o pasto e a vi corcoveando alucinadamente, trinta metros de onde eu estava. As cadelas começaram a latir, então, mais alucinadamente ainda, quando uma gargalhada infantil preencheu o ar!


Hoje, com a sinceridade que os anos me deram, lembrando o pequeno Pepe de 1973, posso afirmar que meu cu nunca ficou tão apertado como naquele momento!! Mas, me enchendo de coragem corri na direção de Açúcar, com a intenção de acalmá-la, precedido pelas cadelas, mais corajosas que eu nesse momento. A poeira me impedia de ver com clareza, mas parecia-me que Açúcar tinha algo, ou alguém no lombo.


O vento, os assobios, as gargalhadas, os latidos, a égua relinchando, aquela profusão de sons me deixavam meio tonto. Quando afinal me aproximava um pé-de-vento descomunal passou por mim, indo na direção do bambuzal, desequilibrando-me e me jogando no chão.As gargalhas foram se distanciando. E tudo se acalmou.


Chulica e Chulica vieram até mim, abanando os rabos tipo “Ei, levanta, tudo bem contigo?”


Levantei-me e caminhei até Açúcar que tinha os olhos dobrados de tamanho. Notei, admirado que sua crina estava toda com finas tranças, milimetricamente feitas. Passei a tarde pensando entrar no bambuzal, mas não fui.


Após o jantar, sentado no alpendre, contei o ocorrido aos meus avós, enquanto meu avô picava seu fumo.Depois de um longo silêncio, desses que só os sábios sabem administrar, meu avô disse:


“Foi um dos sacis...essa égua boba devia ter se acostumado.” E se recolheu. Tive uma noite inquieta, febril.Parecia ouvir ainda os assobios, os relinchos, as Chulicas. Na manhã seguinte, após um café feito no fogão à lenha e acompanhado de muito bolo de fubá, fui até a cocheira ver Açúcar e constatei que agora, além da crina, ela tinha todo o rabo lindamente trançado...

* Paulo Pepe, 39 anos, ouviu muitas histórias, vivenciou outras, bebeu muita cachacinha em alambique e viu muito violeiro bom travar a mão na frente do que não conhecia!

 


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