Saudades da Mata


Eliane Schütt *


Minha história com Saci começou cedo, lá no interior. Quando eu era bem menina, era obrigada, todos os dias, a atravessar um pedaço de mata para chegar na cidade e eu ia, morrendo de medo do Saci, que, como eu lera nos livros e vira na televisão, morava na mata.

Até uma altura era legal, tinha banhado, sapos, girinos, juncos, flores diversas, a luz do sol que passava pelas folhas verdes e brilhava na água. Mas, de repente, a mata cerrava, ficava mais escura e eu sentia a presença do Saci... Era um arrepio e aquele assobio: Sa-CI. Sim, porque ele avisava que estava por perto assobiando o próprio nome. Ver mesmo, eu nunca tinha visto, porque eu tinha medo, fechava os olhos e atravessava a mata correndo, até chegar na cidade, com o coração na boca. Tempos depois eu fui morar na cidade e nunca mais tive medo do Saci, porque o Saci tem medo da cidade.

O fato mais recente aconteceu há três anos. Foi na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Eu estava passeando na floresta com amigos; eis que eu olho pro lado, não me contenho e grito: gente é o Saci! Dessa vez, todo mundo viu, como eu não estava sozinha, não tive medo. Mas a aparição era confusa, uma hora ele era branquinho, outra hora, negrinho; uma hora ele tinha uma perna, outra hora, duas pernas. Coisa de Saci. Eu fui me aproximando e ele, que deve ter me reconhecido e achado que eu ia ficar com medo, apareceu negrinho e com duas pernas. Percebi que o tempo, cruel, tinha passado pra ele também, relembramos os tempos da mata e tiramos uma foto. Que saudade...

Psicóloga e Sacióloga, nas horas vagas.


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