Eu cacei um Saci.


Autor: Elisa Surnin Saes


Freqüento São Luiz do Paraitinga regularmente, e a cultura do Saci me fez lembrar minha infância, quando minha mão fez a mim e minhas duas irmãs caçar Saci nos redemoinhos.

Quando começava a ameaçar chuva e ventar, pegávamos uma peneira de taquara com uma cruz no meio, que ela usava para abanar café, e ficávamos esperando formar redemoinho.

Então saíamos correndo atrás do redemoinho e jogávamos a peneira.

Uma de nós jogava por cima um cobertor e a outra erguia devagarinho a peneira e colocava o Saci em uma garrafa escura que escondíamos em um quartinho escuro e silencioso. Ninguém ousava fazer barulho perto do referido quartinho.

Durante dias observávamos para ver a transformação do ar da garrafa em Saci (curioso é que nossa imaginação infantil mais o incentivo de nossa mãe nos fazia ver o saci se formando dentro da garrafa).

Depois de algumas semanas tínhamos ordem de abrir a garrafa em uma espécie de ritual.

Nunca conseguimos fazer o Saci se materializar, mas segundo mamãe a culpa era nossa, porque não tínhamos jogado o cobertor de modo correto em cima da peneira e o Saci tinha escapado em vez de entrar na garrafa..

Então partíamos novamente para nova investida.

Esse mesmo ritual repeti com meus três filhos, e atualmente repetirei com meus quatro netos.

Sempre morei em fazendas, onde tive contato direto com os matutos do sertão. Nhá Luísa passava horas contando para nós crianças, histórias do Saci, do lobisomem, da mula sem cabeça, do Boitatá...

Ela contava com tanta convicção, porque ela realmente acreditava nessas lendas, que nós ficávamos morrendo de medo.

Para amedrontar os outros que não tinham escutado as histórias, nós pegávamos abóboras e mamões, fazíamos furos imitando caveira, acendíamos velas dentro e colocávamos em cima de um muro bem alto.

A molecada passava correndo embaixo para provar sua coragem.

Os mais crédulos evitavam passar perto, e nós ficávamos observando de longe.

QUE SAUDADE!......

Precisamos preservar isso para nossos filhos e nossos netos.

Viva Monteiro Lobato que “inventou” o Saci para nós termos em cima do que trabalhar.

Elisa Surnin Saes.
trabalho com a preservação dos costumes e tradições dos moradores da Colônia Agrícola Italiana de Quiririm
fone (12) 2 86 17 91


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