A toada de Ivan Vilela
Com essas histórias de Saci é bom tomar cuidado, porque tem muita mentira misturada à verdade. Como tem mais gente que acredita do que quem de fato viu Saci, acaba que há quem termine inventando causos pra não se sentir deslocado no grupo.
O que eu vou te contar, de tanto tempo que conto e reconto, já perdi a certeza do que foi como ouvi ou se já acrescentei, não mentiras, mas o tempero de minha imaginação. E tu ficarás (é uma pena) sem saber se é outra mentira ou o fato foi como eu conto.
O causo esse aconteceu com o Ivan Vilela, mestre da viola, que é malvisto pelos Sacis porque cometeu o deslize de contar que conseguia vê-los, ao invés de se beneficiar e comer tranca.
Pois o Ivan tava lá tentando compor uma toada, sentado à porta da cozinha. A música atraiu aquele povo. Devia haver muito bicho deles ali, porque redemoinhava uma poeira baixa no pátio nessa tarde. E tocava, o Ivan, até o ponto em que julgava que a melodia estava já bem resolvida; então parava para anotá-la na partitura. Nesse momento o polvaréu levantava, não sei se a sacizada contente com o andar da música, ou desagradada com a parada. Mas era só o Ivan arrastar de novo a toada, que o ventinho calmava e a poeira baixava, a sacizada toda sentada debaixo da paineira, encantada com a música.
Mas tinha um determinado trecho do qual o maestro não conseguia avançar. O acorde saía redondo, acertado demais; faltava alguma coisa torcida, que soasse na viola como ferro de bigorna, porque a melodia deveria contar a história de um carreteiro que parava numa ferraria de beira de estrada pra consertar uma roda quebrada. E sempre a composição emperrava era ali, onde o diacho do som não brotava.
Eu te disse lá no início da narrativa que já não sei se a história, que fiquei sabendo pela boca de um Saci, era exatamente assim, ou se já sou eu quem está botando na cabeça do maestro dificuldades com a viola que ele nunca terá. Mas como a história é sobre Saci e tem muita gente sem acesso a eles pra saber como foi que o caso realmente aconteceu, eu continuo contando – e talvez acrescentando – o que os Sacis me relataram.
Eu dizia que mestre Ivan havia empacado num acorde que não lhe caía bem ao ouvido e nem ele sabia bem o que buscava; só sabia que aquilo não ficava bem como resto da toada. Foi quando resolveu dar uma parada prum café e pro xixi, que ele é de natureza humana. Como seria previsível, levantou a maior ventania no terreiro, com redemoinho e roupa dançando no varal, as galinhas agachadas no poleiro porque o tempo fechou. Quando Ivan retornou, ainda antes de abandonar o esforço de vez, tentou uma vez mais o tal acorde com o som de ferro malhado na bigorna. E não é que o som saiu dessa vez?! Saiu o som limpo de batida de ferro contra ferro e a toada avançou até o final, com os bichinhos pretos todos calmados no pátio, assistindo sem reboliço. Acabada a função, noite já chegada e dando-se por satisfeito, mestre Ivan recolheu o instrumento e o banquinho pra dentro da casa, que era hora do jantar.
Foi só quando se preparava pra deitar que ele notou que alguma coisa acontecera com sua viola: havia uma corda torcida, como nozeado fica cola de cavalo quando passa Saci pelo potreiro. E a corda a ssim trançada produziu o tal som que o Ivan buscava e não obtinha por artes próprias.
No dia seguinte ele tentou com outro instrumento repetir o tal acorde, mas a coisa não saía, a melodia não andava. A conclusão foi óbvia – foi coisa de Saci a enredada das cordas da viola que fizeram possível ter nascido a bela toada que hoje todo mundo conhece.
Agora, se o Ivan te contar essa história de outra maneira, não acredita, não, porque esse causo eu ouvi diretamente de um Saci que estava lá naquela tarde. E o mestre bem que pode estar se fingindo de sonso, que é pra não ter de confessar de onde vem essa beleza toda da música que ele produz.
São Luiz do Paraitinga, SP, 1°/11/2003, primeiro Dia do Saci.
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