Um Saci em Cachoeira Paulista
Autor:Sérgio de Souza Barreiros
Eu
trabalhava em Lorena e muitas vezes precisava ficar até mais tarde
no serviço. Às vezes até bem tarde, quando precisava.
Foi numa dessas noites que me encontrei com o Saci pela primeira vez.
Eu fiquei trabalhando até por volta da meia noite, quando bateu o cansaço
e resolvi arrumar minhas coisas e ir embora descansar, pois o dia seguinte
seria corrido também.
Peguei minha pasta, alguns documentos, saí e fechei minha sala. Na
saída eu passava por um corredor grande, onde diariamente desejava
um bom trabalho ao vigia do prédio. Ele me desejava bom descanso, e
eu ia embora. Isso era todo dia.
Entrei no meu carro, coloquei minhas coisas no banco de trás e fui
embora pra casa. Coloquei uma música e fui devagar pensando nas tarefas
do dia seguinte. Eu tava cansado e não via hora de tomar um banho e
dormir. A Dutra parecia que não tinha fim aquele dia. Que dureza!!!
Mas finalmente o trevo de Cachoeira Paulista surgiu e eu entrei na cidade.
Era uma noite bonita, estrelada e fui bem devagar, de certa forma lamentando
pelo cansaço e pelos compromissos do dia seguinte, afinal a noite era
excelente pra ficar acordado contemplando aquele céu maravilhoso.
Bom, entrei na cidade, desci a avenida principal e foi quando virei na praça
Prado Filho, a caminho da minha casa, que vi alguma coisa se mexendo atrás
de uma daquelas árvores pequenininhas que enfeitam o jardim. Eu diminuí
mais um pouco a velocidade e vi um vulto passando de uma arvorezinha para
outra. Fiquei encabulado com aquilo e resolvi dar a volta e ver de perto o
que era aquilo. Fiz o contorno e parei bem onde tinha visto aquele troço.
A praça estava escura e me lembrei que tinha uma lanterna no carro,
daí a peguei e fui andando em direção ao jardim. Cheguei
bem perto, acendi a lanterna e comecei a procurar aquela coisa que eu não
sabia o que era ainda. Coloquei a luz aqui, ali e nada. Procurei, procurei
e nada. De repente eu ilumino bem no cantinho de um arbusto e vejo um Saci
agachadinho e com uma cara de assustado que só vendo. Eu também
levei um baita susto e não sabia o que fazer, afinal eu nunca tinha
encontrado um Saci de verdade bem na minha frente.
Ele tava com os olhos arregalados e tava assustado. Daí eu perguntei
a ele: – O que você tá fazendo aqui moleque?
E ele me respondeu:
– Nada não moço. A noite tá bonita e eu tô
só passeando.
Eu não acreditei naquela resposta e perguntei de novo, mas ele insistiu
na mesma resposta. E assim foi um tempão. Eu perguntando e ele me enrolando
o tempo todo. Eu conhecia as histórias de Sacis e sabia que ele deveria
estar aprontando alguma coisa. Fiquei enrolando a conversa pra que ele confiasse
em mim e contasse o que fazia ali na praça da cidade e por que não
tava na roça como os outros Sacis. Eu desconfiei que ele tava perdido
e não sabia voltar pra casa.
Sentei num banco perto dele e começamos a conversar. No começo
ele tava meio assustado e falava pouco, mas aos poucos foi confiando em mim
e se soltando. Certa hora ele já falava como uma matraca. Acabou me
contando um monte de coisas interessantes sobre ele e sobre a vida de outros
Sacis.
No meio da prosa eu perguntei de novo o que ele tava fazendo ali e novamente
me enrolou e não respondia. Foi quando eu pensei em pegar o gorrinho
vermelho dele. Eu sabia que é no gorrinho que estão seus poderes
mágicos. Mas não encontrava jeito pra isso, então fui
conversando, conversando até que percebi um monte de palha seca no
chão da praça e tive a idéia de fazer os nós que
ele tanto detesta. Fui conversando e sem que ele percebesse peguei uma palha
grande, fiz três nós e joguei bem na sua frente. Pronto! Num
prisco eu tinha agora o Saci na minha mão e falei:
– Olha! Agora você me fala o que ta fazendo aqui e o que quer.
Ele ficou assustado e me pediu que tirasse a palhinha de perto dele, mas insisti
que só faria se ele me contasse o que tava aprontando. E ele desesperado
me disse:
– Tá bom!!! Tá bom!!! Eu conto, mas você tem que
me ajudar a voltar pra casa.
Eu já não agüentava mais de curiosidade e disse pra começar
a contar logo por que já era tarde e eu precisava dormir. Eu tava certo
quando desconfiei que ele tava perdido.
O Saci me contou que era das matas de Taubaté e ficava perambulando
toda noite pelas fazendas da região fazendo bagunça e aprontando
com as pessoas que moravam por ali. Foi quando ele resolveu azedar o leite
na carroceria do caminhão de um fazendeiro que estava a caminho da
cooperativa daqui da cidade. Mas enquanto ele fazia suas traquinagens não
percebeu que o moço ligou o caminhão e veio embora. Ele ficou
entre as latas de leite com medo de pular, então ficou quietinho esperando
uma chance de sair e voltar. Mas o fazendeiro veio direto, sem parar. Passou
por Pindamonhangaba, Guará, Lorena e entrou em Cachoeira pra entregar
as latas de leite. Foi quando ele deu uma paradinha na praça, não
sei por quê, e o Saci aproveitou pra descer da carroceria e se esconder
no jardim da praça. Ali ele tinha ficado até a hora que eu passei.
Me contou isso meio tristonho, daí eu resolvi ajudar o Saci a voltar
pra casa. Ele ficou contente e disse que comigo não iria aprontar nada.
Disse a ele que entrasse no carro que eu o levaria até o lugar de onde
não deveria ter saído. Entramos no carro e saímos em
direção a Taubaté. Peguei a palha com os três nós
e coloquei no painel do carro. Sei lá se podia confiar nele de verdade,
então resolvi tomar essa precaução.
Fomos bem devagar pela estrada e ele foi me contando mais um monte de histórias.
Quando chegamos em Taubaté, no trevo de entrada, ele me pediu pra parar,
pois conhecia o lugar e sabia que ali era a estrada que o levava de volta
pra casa. Parei o carro, descemos e ele saiu pulando na direção
de umas árvores grandes que tem na beira da estrada e desapareceu.
Ainda fiquei uns 10 minutos olhando em volta pra ver se ele aparecia de novo,
mas nada do Saci. Ele sumiu mesmo.
Entrei no carro e vim embora. Cheguei em casa, coloquei o carro na garagem
e fui dormir. Já tava quase amanhecendo o dia.
No outro dia o pessoal no trabalho me perguntava por que eu tava tão
cansado e com cara de quem não tinha dormido nada. E eu respondia a
verdade. Que tinha ido levar um Saci de volta pra casa e isso tinha durado
quase a noite toda. Eles me olhavam meio esquisito, mas ninguém duvidou
da minha história. Se duvidaram, não me disseram.
Por onde será que anda aquele Saci???
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