Saudades da Mata

Saudade do Saci


Autor: Lizete Teles de Menezes

Três Sacis em São Paulo...

Ti Joaquim, tio de minha mãe, morava na beira do rio São Francisco, lá pras banda de Fazenda Nova, entre Casa Nova e Sobradinho. Santo homem pra uns, tirado com o demônio pra outros, Ti Quim matava cobra só de olhar, pregando o olho no olho da bicha. Marimbondo sentava no braço dele e ali mesmo morria. Matava onça no braço e cortava o vento. Tinha o corpo fechado, o véio Joaquinzão, irmão do vovô. Gostava de criança, passarim e peixe.

Certa feita, tinha eu uns 8 anos, atentei tanto Ti Quim que ele me levou a uma pescaria. Finzim de tarde, saímos no paquete atrás de peixe. Ele parava a canoa aqui e ali, onde deixava as groseiras, perto da margem do rio, verificava as cabaças, os jequis, tirava pirá, surubim, dourado, a bóia ia ser boa. Depois, remava pra mais longe, sabia onde jogar a tarrafa pra pegar caboge.

Nesse dia, formou uma nuvem turva, Joaquim disse: "Evém tempestade, mas num pega nóis não, que Deus é grande". "É mermo, hi, hi, hi", disse uma voz fininha. Olhamos pra proa do paquete, e lá estava ele, barrete vermelhinho na cabeça, cachimbo na boca, a perninha encolhida. Joaquim olhou assombrado. "Quem é essa entidade preta, meu sun Benedito?". "Num é entidade não, Ti Joaquim, é o Saci Pererê". "Como é que tu sabe, menina?". "Eu li num livro que tem lá em casa". "Esses menino de cidade sabe cada leivosia".

A ventania apertou, meu tio garrou a rezar, o vento passou ladeando a canoa, não sentimos nem mareta. O Saci pulava pela canoa toda, gritava espavorido que nem criança. Nem deu tempo de ter medo da tormenta de tanto que me ri dele. Joaquim: "Eta assombração dos inferno, quaji errei a reza com a gritaria dele. Cadê aquele perneta? Ele que me enfrente". O Saci saiu não sei de onde, pulou na cabeça dele e fez xixi. Joaquim passou a mão no líquido, cheirou: "Siá menina, eta mijo bom, parece água de cana, é pura cachaça".

Depois do sucedido, contam que os encontros do meu tio com o Saci se repetiram até quando ele deixou esta terra. Eu nunca mais vi Ti Joaquim, ficou só a saudade. O Saci, encontrei outro dia, bebendo cachaça, em Paraitinga. Não ele, eu. Eu e mais um bocado de gente, que não me deixa mentir.

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