Fique por dentro


Viva o saci-pererê!

Autor: Luis Ricardo Manetti


Quando eu era criança, faz tempo, morávamos em Londrina/PR, em uma casa, a meio caminho entre a roça e a cidade. Fizemos muitas amizades com o povo que vinha dos sítios para a cidade e paravam, para prosear e tomar uma água gelada. Entre as pessoa assíduas estava o sêo Emílio, grande contador de causos, falava muito do saci-pererê, do lobisomem, do pote de ouro do arco-íris, da mula-sem-cabeça e, várias outras histórias.

Eu era especialmente fascinado pelo saci, e estimulado pela leitura dos livros de Monteiro Lobato, tinha a minha própria peneira de caçar saci-pererês, devidamente protegida por uma cruz. Nessa época, 1955/56, houve um extenso desmatamento no noroeste do Estado, barreira natural para os fortes ventos que vinham do sudoeste do continente sul-americano, o que favorecia o surgimento de incontáveis redemoinhos, que é o esconderijo predileto dos sacis, e eu passava horas perseguindo os pés-de-vento.

Dos outros seres fantásticos descritos pela nossa cultura, que conheci inicialmente pelo sêo Emílio, achava interessante a mula-sem-cabeça, que segundo o pessoal mais antigo, era uma mulher muito má, que de quinta para sexta-feira transformava-se e galopava pelos campos soltando fogo pelas ventas, como? se não tinha cabeça, para alguns estudiosos ela fora namorada de padre. O lobisomem, de origem européia, era o sétimo filho depois do nascimento de seis mulheres, que fizera maldades com a mãe e transformava-se nas sextas-feiras de Lua Cheia, e saía pelas estradas assustando pessoas. Na versão norte-americana o bicho é feroz, mau e fortíssimo, na versão caipira, como é castigo, além dele ser bravo e malvado, aprecia muito comer cocô de galinha.

Por essa época, em Londrina, caiu uma tempestade muito forte à noite, e pela manhã, havia ao lado da janela do quarto do meu pai, um par de pegadas dianteiras semelhantes a de cachorro, bem maior do que as comuns. Meu pai, brincalhão, espalhou que tinha visto o "Tinhoso", na figura de um baita de um lobisomem, isso foi o suficiente para que o bicho fosse visto em todo o bairro do Aeroporto e vizinhanças. Ninguém mais saía à noite sozinho, pois naquela época a energia elétrica no bairro só era disponível às terças, quintas-feiras e sábados, das 20 às 22h. Por outro lado os fanfarrões diziam que não tinham medo e iam para todos os lugares a pé e altas horas da noite, tudo mentira. Para que o assunto caísse no esquecimento, passaram-se mais de 40 dias.

"Pensando nisso agora, depois de muito refletir, tenho a certeza de que quem inspirou meu pai a espalhar o boato e levantou as patas de trás do cachorro, para ele escorregar, foi o saci-pererê, que eu estava tentando pegar."

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