Assombramento, um causo acontecido
Autor:Terezinha Pereira
Era um dia desses quentes, sem brisa fresca nenhuma para desassanhar os mosquitos.
O menino de cinco meses obrava e parecia não ter mais nada dentro do
bucho para botar pela boca. Instava era levá-lo para benzer. Agosto,
mês de desgosto, não carecia mais de esperar, que o menino podia
era dar a alma a Deus.
No pouco pedaço de terra que havia sobrado da fazenda outrora de tamanho
de conta perdida, Evaldo morava com o pai Antero, a mulher Reni e os três
filhos. O maior tinha acabado de completar cinco anos. A família tomava
conta da Pousadinha, uma pequena hospedaria para pescadores que vinham até
àquela região perdida do Pantanal à procura de seus mais
ansiados peixes. Nesse dia calmo e desventoso, o menino caçula, moleira
afundada, já não abria os olhos de tão fraco. Evaldo
pegou mulher e os três meninos, pôs todos no barco, que o pai
havia combinado de entregar uma carga de bananas naquele dia e não
podia tomar conta de menino e, então, saiu para a vila que distava
mais de três horas de latomia de pó-pó-pó. Bom
seria encontrar a Juventina na casa dela e também o menino menor escapar
daquele desarranjo que vinha desde anteontem.
Achar o caminho que levava à mais próxima vila, ficava por conta
de avistar as garrafas de plástico fincadas nos troncos que sobraram
das árvores do terreno inundado há quase trinta anos. Era agosto.
Margeavam as águas uma vastidão de pés de ipê copados
de um tom roxeado mais puxado para rosa que combinava com o verde intenso
das outras incontáveis árvores sem flores de mais de século
existentes naquele lugar. Veios d’água do rio que se fazia em
muitos outros se adentravam árvores afora.
No navegar pelo rio meio à sombra constante que as árvores proporcionavam,
um ponto vermelho agarrado num galho Evaldo vê e aponta à mulher.
Que era um gorro de ponta esgarçada, nem marido nem mulher duvidou
que fosse. Dedução que fez com que um calafrio lhes percorresse
a espinha após um encontro de olhares. Se o moleque tinha perdido a
carapuça, coisa que não era de costume, que não tivesse
sido ela subtraída por criatura de força maior e jogada de ruindade
naquele rio. O que parecia mais de razão. A ponta furada do gorro vermelho.
Tivesse sido roubado o gorro, o moleque já seria escravo, só
Deus sabe de quem. Dois “coisa ruim” para fazer susto nas criações
e nas gentes. Estaria com razão o compadre Serafim. Fim da semana passada,
enquanto tocava o gado, havia ele ouvido um silvo que parecia de vento ou
não, quando as matas estavam paradinhas que nem retrato. Então
os bois haviam saído numa carreira danada, que ele acabou custando
a juntar tudo de novo. Havia o compadre contado o acontecido somente aos ouvidos
de Evaldo e da mulher, que não carecia de o pai Antero ficar desinquietado.
E não é que marido e mulher haviam era soltado um muxoxo ao
ouvirem o dito do compadre Serafim. Mais de muitos anos que o negrinho perneta
só aparecia nos causos que o pai Antero contava de cabelo arrepiado.
Melhor era dar mais um tico d’água com açúcar mais
sal ao menino doente de acordo com que os pescadores haviam lhes ensinado
quando partiram naquela manhã e continuar pedindo a Deus que Juventina
estivesse em casa, que aquela carapuça, ainda mais soltando fios na
ponta, era de mal agouro.
Deram de frente com a Juventina que voltava da lavação de roupas
com a bacia equilibrada na cabeça com a ajuda de uma rodilha.
- Vem chegando seu Evaldo. Já estão com três moleques!
Benza Deus, que o maior já está desenvolvido, não demora
que apanha o pai.
A mulher foi colocando a bacia de folha de lata no chão e destorcendo
o pano da rodilha, que amarrou na cintura como avental.
- Esse menino do meio nem cheguei a conhecer. Menino sadio. No entanto, não
me custa fazer uma reza para ele também. Ô, Reni. Esse mais pequeno
está precisando de mais água. Corre aqui com ele. A gente faz
as rezas, mas não pode deixar o moleque sem água de beber.
E foi a mulher dando água ao menino e fazendo suas rezas.
- Preocupem com ele não que a benzedura vai deixar ele sãozinho!
Mas lembra de dar água para ele. Leva esse pote cheio pra molde da
volta. O moleque vai obrar só o que está lhe fazendo dano, quando
chegarem em casa a moleira já estará no lugar. Devem de estar
com fome. Fiquem sentados aí, - foi dizendo e colocando um pedaço
de rapadura na chaleira. -Vou fazer um café para nós. Tenho
mandioca cozida e um pedaço de pamonha que a comadre que mora na banda
de lá do rio veio trazer hoje, quando o dia começou a apontar.
Não imagina. Teve ela assustada na noite. Disse que as duas juntas
de bois que a família tem para o trabalho da roça foram um desassossego
só. Parecia que havia alguma coisa aperreando os animais. Um deles
amanheceu com o pescoço ferido e sangrando. Sei não.
Marido e mulher entreolharam-se e foram agradecendo pelo café doce
e ralo que Juventina lhes oferecera. Comeram da mandioca, deram um pouco aos
meninos maiores e observaram que o de cinco meses já estava com os
olhos querendo ficar espertos. Careciam de pegar o barco que podia ficar de
noite no meio do caminho. Tinham era de fazer figa para que, quando chegassem
em casa, o pai Antero tivesse voltado da entrega da carga das bananas. Mais
figa ainda teria era ele que fazer, foi o que pensou o Evaldo, ao ver na beira
do fogão de lenha um cachimbo muito preto de fuligem, que ele estava
certo de não pertencer à benzedeira e que ele preferiu fazer
de conta que não vira para não causar mais incômodo à
mulher.
O arrulho dos pássaros foi ficando mais forte e transformado em gritos
estridentes com o chegar do entardecer. Se estivéssemos vendo um filme,
que fosse de suspense, nesse momento ouviríamos uma melodia. Poderia
ser o melancólico Adagietto da Sinfonia nº. 5 de Gustav Mahler,
que Visconti ousou no filme “Morte em Veneza”. O pó-pó-pó
do motor da pequena embarcação que deslizava no imenso rio,
o som das águas agitadas com o deslizar do barco, o intenso verde colorido
do rosa dos ipês, o grito agudo dos pássaros que procuravam abrigo
com o baixar do sol entre as incontáveis árvores, os olhares
cismarentos de marido e mulher, três crianças pequenas... E a
melodia...
Por sorte o menino doente foi ficando viçoso. Os outros dois, sentados
no fundo do barco, beliscavam da pamonha oferecida pela Juventina e bebiam
da água do pote grande de barro que ela havia recomendado de encher.
Fome saciada, menino maior, menino do meio e menino pequeno olhavam a água
que escorria rio afora com o movimento do barco e cochilavam. Marido e mulher,
mudos, insistiam na troca de olhares. Mediante olhares, que a fala ficara
abafada, escolheram o caminho de volta. Não quereriam dar com o gorro
vermelho agarrado no galho e nem se arriscariam de não vê-lo
mais lá.
Um lugar perdido no meio do mundo. O rio vai se multiplicando em veios que
se emaranham na paisagem plana de sumir de vista. Restos de tocos do que havia
sobrado das árvores da fazenda inundada tornam semelhantes todos esses
filetes d’água. O brilho das pets amarradas nos troncos indicam
a trilha da chegada. A Pousadinha é avistada crescendo com o aproximar
do barco. Dois quartos, dois banheiros de bom tamanho e bem arrumados, teto
de amianto com ventilador para abrandar o calor e um varandão ao redor,
todo cercado de tela fina por causa da grande quantidade de mosquitos que
insistem em voar, não importa seja noite ou seja dia. A mesa de madeira
antiga, comprida, guarnecida de dois também compridos bancos são
usados para as refeições dos pescadores e para o lazer da noite.
Um aparelho novo de TV ainda não usado está dentro de uma caixa
encostada num canto do varandão. Ficou de vir um técnico de
Corumbá, a cidade grande mais próxima, para instalar a antena.
O prometido estava para ser cumprido desde mês atrás, quando
o pai enfrentou onze horas de barco na ida e na volta, para levar uma carga
maior de bananas e trazer o aparelho. A energia que acende as luzes e move
os aparelhos da Pousadinha e da casa dos caseiros do alagado é fornecida
por um gerador a óleo que fica numa pequena coberta a uns 100m da casa.
Óleo esse que precisa ser reposto a cada doze horas de funcionamento
do motor, o que obriga o Evaldo a levantar-se toda madrugada, entre uma e
duas horas, para fazer o abastecimento.
A mulher procura lembrar o nome dos hóspedes daqueles dias: Isaías,
Joel, Wilson e Oswaldo. Os dois primeiros estão na bíblia. Nomes
de gente de cidade os dois últimos. Era uma peleja ter de decorar nomes
de gente diferente toda semana. Havia também o Fabinho e o Narciso.
Mas esses eram os piloteiros dos barcos que costumavam vir trazer os pescadores,
turistas de cidades grandes. Alguns retornavam a cada ano, quando estavam
novamente de férias. Neste silencioso desembarcar da família,
quando o sol se punha direto na água colorindo céu, água
e tudo o mais de um laranja de diversos tons, estaríamos ouvindo os
movimentos finais da música de Mahler.
Reni desce do barco que o marido acabou de amarrar num dos troncos e carrega
um menino de cada vez para dentro de casa. Então, lava as peças
de roupa do dia que por causa da viagem não lavara e estende-as no
varal de frente da casa imaginando que o calorão da noite haveria de
deixá-las todas bem secas. Nem precisava prender as roupas com o pegador
com aquela paradeza de ar. Acabada a tarefa, quando já ia se deitar,
que o menino menor não a deixara dormir na noite de véspera,
sente um calafrio. As roupas penduradas no fio de arame do varal se movem
de um lado para o outro. Olha para os lados para ver se nota algum movimento
nas folhas das árvores que permanecem quietas. De ruídos, ouve
o piar de uma coruja e o chacoalhar das águas do rio nas madeiras do
pequeno porto, único elo, além do rádio de pilha que
pai Antero não deixa para nada, que liga aquele pedaço de terra
ao resto do mundo. Corre para dentro de casa sem olhar para trás.
Na Pousadinha os pescadores falam a respeito do tamanho de um peixe que haviam
pescado, um jaú de 94 centímetros. Como que podia. Um centímetro
de menos. Pesca inútil. Não podiam levar o peixe para casa.
Pensam em esticar o jáu.
- Podemos amarrar o peixe com uma corda e prendê-la numa ripa do
telhado!
Os pescadores, cada um deles, foi tomando seu banho, enquanto, meio a prosa
e risadas, prepararam peixes para comerem com a pinga boa que haviam trazido
num garrafão. Ainda meio a prosa e muita risada, jogaram dado e pôquer.
Comentaram sobre o martim-pescador, o pássaro que chegava bem próximo
dos barcos de pesca para pegar peixes ainda vivos de dentro do balde. Quando
experimentaram medir de novo o jaú que jazia esticadão pendurado
pela corda, esse mediu meio centímetro a mais do que o permitido pela
lei do Ibama para ser pescado e levado para casa. Façanha que durou
pouco. Em outra medição que fizeram minutos depois do repouso,
o jaú não media nada mais do que os 94cm. Penduraram o peixe
de novo. “Quem sabe até amanhã...”
Foi passando da meia-noite e nesse momento ouviríamos uma melodia ao
som de piano. Alguns poucos acordes repetidos e espaçados, como naqueles
filmes de terror. O piado da coruja misturado com o som musical. Alguns pescadores
foram procurar cama que o dia logo amanheceria. Haviam combinado de saírem
para a viagem de volta a Corumbá, dia ainda escuro. Os piloteiros já
haviam ido para o mesmo quarto que costumavam dividir a cada semana. Um dos
pescadores deteve-se um pouco mais. Procurava distinguir os poucos sons que
se misturavam com o silêncio da noite naquele lugar. Foi a conta de
ele deitar-se e virar para o canto. Um grito rompeu toda aquela quietude:
-Pai! Pai!
Se pungente fosse o grito, estariam supondo que o menino caçula teria
morrido. Não haviam presenciado a chegada da família da benzedeira
naquele começo de noite. Quem sabe o menino teria só piorado...
Se, de dor fosse o grito... Também de dor não seria. Um berro
estarrecedor. Chegam todos ao mesmo tempo na varanda, menos um dos piloteiros.
Então avistam Evaldo na porta da varanda. Desfigurado. Cor de cera.
- É o bicho! É o bicho! – era o que repetia aos gritos.
Ofereceram-lhe água que ele não deu conta de tomar por causa
da tremura no corpo todo. E continuou gritando que era o bicho. Deve ter levado
mais de hora para conseguir emitir voz. Contou que estava indo completar o
óleo no gerador quando se deu conta de que uma brisa leve havia começado
a soprar. Notou que os porcos que estavam num ninho no meio do caminho haviam
virado todos de costas para o sul. Era um presságio de que o vento
sul iria chegar. Quando o vento sul surge naquela região do Pantanal
é um verdadeiro horror. Não há turista que agüente
e aquele ninho de porcos indicava que isso estava prestes a acontecer. Agachou-se
para dar mais uma olhada no ninho e quando ficou de pé, sentiu um calor
de fogo. Andou alguns passos e o calor foi aumentando, aumentando. Foi então
que viu, meio a um clarão, um vulto preto de lábios grossos
e vermelhos, cabeça descoberta, com as mãos levantadas. Atrás,
um nanico de cabelos vermelhos, saiote de penas, com os calcanhares virados
para frente e os dedos dos pés para trás. Perdeu as forças,
deixou o latão de óleo derramar, caiu esticado no chão
e não sabia quanto tempo havia ficado caído até poder
soltar a voz para chamar o pai. O martelar de poucas teclas de um piano imaginário
acompanhava as cenas.
Os pescadores custaram a voltar para a cama. Pai Antero, um senhor de seus
63 anos, ainda ficou durante muito tempo tentando diminuir a aflição
do filho que não parava de tremer e de repetir gaguejando que era o
bicho. Do pai, ouviram que ele também já havia visto alguma
coisa na ocasião em que a fazenda grande havia sido engolida pelas
águas da enchente que deixara sobrar aquela pequena ilha rodeada de
aguapés, onde só se chega de barco e onde ele planta bananas
para o sustento da família
A palavra assombração só surgiu quando os pescadores,
após horas e horas de viagem pelos riachos misteriosos em que se subdividia
o grande rio, chegaram ao lugarejo próximo a Corumbá, onde ficava
o hotel em que passariam os últimos dias de férias. A notícia
espalhou-se entre os outros hóspedes e os piloteiros dos barcos de
pesca. E cada um teve um causo acontecido de assombração para
contar. Foi a noite das almas penadas, do boto, da iara, do lobisomem, ainda
que não era noite de lua cheia, da mula-sem-cabeça, do curupira,
do saci, do caipora, do boitatá.
Alguns achavam que o Evaldo estava coberto de razão ao dizer aos pescadores,
quando eles se despediam na Fazendinha, que nunca mais haveria de abastecer
o gerador nos começos da madrugada. O piloteiro que havia ficado no
quarto, mesmo jurando de pés juntos que era de seu costume dormir como
uma pedra, e por isso é que não havia se levantado para ver
o que estava acontecendo com o Evaldo, faltou pouco para ser chamado de medroso.
Teve de agüentar o riso e a ironia de todos. Imagina, homem com medo
de assombração, em pleno fim do século XX. A melodia
do final desse causo acontecido numa pequena ilha de rio meio a um mundaréu
de água, de troncos e galhos enegrecidos, tortos e desfolhados e de
inúmeras árvores copadas, verdes ou de rosa floridas em agosto,
fica por conta do gosto de quem aproveita das entrelinhas para construir a
sua história, aquela não narrada por palavras escritas.
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