No tempo em que o Saci bebia
Esta estória é muito, muito, muito antiga. Passou-se no século passado, o já velho século XX, quando a maioria das crianças ainda não tinha nascido ainda, mas pelo menos já eram um desejo de seus pais.
Vou contar o caso como o caso foi: ladrão é ladrão, boi é boi!
A história tem lugar em três locais diferentes: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
Ela começa em São Paulo, em 1978. O Saci morava na Rua Teodoro Baiman (nem sei se é assim que se escreve direito), no alto do alto de um edifício, depois do último andar. Nas madrugadas, com redemoinho ou sem redemoinho, descia até o Bar Redondo, onde sorvia (lá no fundo, perto dos banheiros) uma Caracu com dois ovos, depois saía sem pagar, sempre que podia.
Naquela época, coitadinho do Saci bebia também industriais doses de cachaça e vendia seus livros de poesia nas imediações.
Isso mesmo, o Saci sempre foi – um (bom) poeta!
Trabalhava à noite e dormia de dia, com buzinas, carros e a confusão da Rua da Consolação. Só uma coisa não consolava o Saci:
– Quando é que a ditadura militar vai acabar??? , perguntava, sempre que nos encontrávamos ali pela Praça Roosevelt. Embalado por várias cachaças, o Saci encostava a cabeça no meu ombro e chorava, chorava, chorava, feito uma criança.
Rio de Janeiro, meados de 1979. Rua Frei Caneca. Interior. Noite.
No presídio do mesmo nome, um segredo até hoje guardado a sete chaves pode ser revelado: o Saci esteve preso por quase dez anos! Era ele quem ajudava o Zé Roberto a fazer seu artesanato. O Perly e o Prancha, que ainda estão vivos e também foram presos pela ditadura militar, podem confirmar a história.
Um dia, depois de devastadora greve de fome, em uma assembléia, o Saci, solene, disse:
– Olha, meus queridos companheiros, eu estou cansado disso tudo aqui, cansado mesmo. Não basta ter perdido minha perna na tortura, não basta essa greve de fome que está consumindo a todos nós, essa anistia que não vem nunca. Aposto que os poderosos irão aprovar – a pressão popular anda mesmo muito grande – uma anistia restrita, recíproca e ainda vamos ficar algum tempo por aqui. Pra mim chega!
Disse isso com uma voz entre o triste e o revoltado, quase engasgado, deu um forte abraço no Zé, que era seu companheiro de cubículo, deu um outro abraço no Perly, aproveitou – ele que nunca perdia o bom humor – pra enrolar a barba e os cabelos do Prancha.
Um companheiro encrenquinha ainda chegou a rosnar entre os dentes:
– Sempre soube que esse Saci era um derrotista!
No dia seguinte, bem cedinho, no pátio perto do tanque, o Saci disse ciao e sumiu em um redemoinho que balançou todas as árvores do Morro de São Carlos, dos morros de longe e dos morros de perto. Nem o grupo Tortura Nunca Mais, nem a arquidiocese de São Paulo, incluíram o Saci na lista de torturados e desaparecidos.
Olha o Saci em Belo Horizonte, gente!
Aconteceu na Casa do Jornalista, quando estava sendo fundado o Comitê Brasileiro Pela Anistia. Até então só havia o Movimento Feminino Pela Anistia. Nessa reunião foi que eu vi, pela primeira vez, um companheiro um pouco calado, fumando obsessivamente seu cachimbinho – era um cachimbo barato, de barro – e quase não falou nada. Apenas via sua mão levantada nas votações. Votava com a mão que fumava o cachimbo. Votava sempre bem.
Terminada a reunião, todos nós com a paranóia a roer os calcanhares, ele me chamou pra tomar uma cachaça no “Bar do Espanhol”, perto do Mercado Municipal:
– Mecê num gostaria de tomar uma e comer uma fritada lá no Bar do Espanhol mais ieu?
Fiquei um pouco preocupado, mas topei.
Achei estranho aquele linguajar, pensava o companheiro um pouco “bruto” no falar. Eu é que tava errado: o mecê e o ieu vinham de longe, de formas cultas. O Saci falava, conforme pude constatar mais tarde, fluentemente iorubá e bantu; português castiço; espanhol idem; vários dialetos da península itálica e um árabe difícil de dicionarizar.
Foi nesse dia, melhor dizendo, nessa noite, que me fez a mais estarrecedora das revelações: era um militante da ALN, fugido do presídio. Contou-me detalhadamente a sua história: era descendente de um casal de escravos (ela, angolana; ele, congolês; como foram parar no mesmo navio negreiro, isso nem o próprio Saci me explicou), o colonizador português, o tuga , cortava a perna de todo aquele que fugia, daí a origem de sua perna única, coisa ancestral. Confirmou que os Sacis militavam na ALN (chegaram, alguns, a nutrir profunda simpatia pela VPR, mas pularam em um conturbado congresso em Petrópolis, ou Caraguatabuba, se o Saci já não estava bêbado demais) ele não fora aquele que fugira da Frei Caneca, era um outro parente seu. Gostava da justiça e odiava a exploração do homem pelo homem, fundamentalmente. Para procriar se contentava com qualquer local, desde que a Saci não fosse “perua” – premunindo, talvez, essa espécie de intragáveis metidas a Saci que pululam por aí –, mau caráter, ou tivesse cursado a faculdade de Direito da UFMG (nunca me disse, até hoje, o porquê). Detestava ambientes fechados – talvez o atávico desconforto passado por seus ancestrais no negreiro, financiado, conforme vim a saber depois, por um inglês chamado Caurróiter, uma coisa assim, primeiro financiador da burguesia nacional, então povoada de barões metidos a nobres e escravos a fim de se safar, melhor pularmos esta parte da pesquisa; ficava incomodado com o barulho, qualquer barulho, que é um péssimo fator para os Sacis devido a sua audição sensibilíssima.
Disse que o fumo do seu cachimbo era fácil de encontrar, mas advertiu, premonitório:
– Mecê avisa que envém um fumo branco, mais pra daqui a pouco, Mecê verá, que vai devastar até os mourejados! Mecê num põe esse bocão nisso não.
Tirando isso, que à época eu confesso não ter entendido bem, o Saci confessou que fumava de tudo, exceto o “fumo fedido de cachimbo de inglês”. Um psiquiatra, dublê de psicanalista, me disse que “era espécie de negação do explorador, pulsão orientada ao atávico medo de cumprir o contrato social; para Lacan, o medo de ‘a-ré-matar'”, que eu também não entendi muito bem até hoje.
Perguntei sobre o seu estiloso gorro e ele me disse que era padrão de todo Saci adulto, o gorro do Saci filhote, até os sete anos de idade – quando adquirem a maturidade sexual – é cinza. Disse ser impossível fazer ou imitar o autêntico, avermelhado com uma solução de pó de minério de ferro e urucum. Comia de tudo até ir pra cadeia. Hoje já não come mais bicho que tenha sido morto: “Esse costume cristão bárbaro. Num cômi gente, mas cômi bicho!” Disse-me que existem várias fazendas coletivas onde todos os Sacis filhotes são criados. É um projeto que nunca conseguiu financiamento de nada, nem de ninguém. Aliás, quando perguntei a ele sobre financiamento, me disse:
– Discunheço, mas Mecê fuja desse filho da puta sempre que Mecê puder."
Já completamente embriagado, começou a falar só das Sacis. Saci não conhece doença. Conhece tristeza, que é a doença que os Sacis têm de vez em quando. Essa conversa de filho de Saci nascer com três pernas é mentira, dizia o Saci, bêbado:
– Saci macho, tem uns que nascem com duas, a sacizada toda gosta, muié qui num é Saci também. Com três, nunca vi!"
Contou-me ainda (a explicação tava muito longa e eu me lembro de ter saído pra mijar, mas o Saci continuou falando):
– ...muito Saci já nasce construtor. Tudo construtor de idéias boas. Alguns nascem querendo acumular, explorar. Esse tipo de Saci já nasce morto. Tem Saci em todo lugar do planeta, o povo é que é bobo, não vê. Ah! Tem um país, ao norte do México e ao sul do Canadá, que não tem nenhum Saci. Acho que é por isso que o povo que mora lá tem essa mania de ser patrão. Saci num güenta patrão."
Disse que essa conversa de prender Saci com crucifixo, rosário, reza, uscambáu, é tudo mentira.
– Mecê fique sabendo que nada, nem ninguém, prende Saci. Prender em jaula é coisa que só bicho-homem faz!"
O Saci ainda me disse pra lembrar bem daquilo tudo.
– Daqui a pouco, um Mecê vai preguntá isso tudo que nóis falamu. Mecê vai isquecê a maior parte. Mecê é ‘baixim, bebe só pra ficá alto' . Mecê divia pará de bebê, senão Mecê morre. Mecê pensa que Mouzar tem fígado, estômago, intestino? Mecê fique sabendo que Mouzar e Mário é tudo Saci. Iñaliás, Mecê também é Saci. Igual o Saci japonês que o mininu vaivê no futuro. Tem um tal de Guillherme Rocha que vai preguntá Mecê sobre essa cunversa nossa, pódi conta..."
Tava amanhecendo.
* Testemunha ocular da existência de vários Sacis.
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