Mandraquice do Saci


Autor: Renato Ribeiro

... E ali convivíamos com alguns Sacis, poucos, que viviam entre o cafezal e o pasto do gado para invernada. Ao que parece, eles gostavam de comer o sal nos cochos dos bois, mas o certo mesmo é que o galinheiro eles assaltavam para comer ovos. A gente sabia mas não ligava. Era parte de nossa vida e cultura. O pai toda noite deixava fumo para eles sempre lá perto da caieira da olaria, que ficava acesa dia e noite queimando tijolos e nossas matas. Uma vez, chegaram umas pessoas inesperadas para o almoço. Era a turma que vinha ajudar na colheita do café. De longe, minha mãe ouviu o canário-cantadô – era assim que ela falava do carro de boi que cantava quando vazio e gemia quando carregado. As decisões da cozinha foram logo tomadas por ela, dona de casa que tinha iniciativa para qualquer eventualidade. Mais água no feijão, farinha de milho e estava pronto um tutu mineiro recoberto com ovos cozidos, torresmo e lingüiça com o bambu atravessado sobre o fogão para ficar curada com a fumaça. E nessas tarefas ela mandou minha irmã Preta, a mais burrinha das irmãs, ir ao galinheiro apanhar ovos para serem cozidos e usados no tutu e macarronada, uma comida rápida, mas da melhor qualidade quando feita num fogão a lenha, com alguns ingredientes como experiência e carinho das cozinheiras de Minas. No apavoramento ela colheu todos os ovos do ninho que foram de imediato cozidos. Tarde demais, ela se deu conta de ter esquecido de deixar o ovo de indez no ninho para as galinhas não abandonarem seus ninhos. Pediu para eu arranjar na vizinha pelo menos um ovo emprestado para ficar de indez e eu, por preguiça ou molecagem – o mais certo talvez fossem as duas opções – levei um ovo cozido para o ninho da galinha pedrês que havia há pouco sarado do gogó e estava quase pronta para ficar choca em meados de novembro, data muito apreciada para as galinhas iniciarem a choca porque se começarem a chocar dia quatro de dezembro, dia de Santa Bárbara, os pintos nascem dia 25 de dezembro e dessa ninhada sempre saem galos músicos, que cantam dobrado pela madrugada, ou fora de hora quando há moça fugindo... Inicia-se o choco sobre treze ovos; sempre se coloca número ímpar para nenhum gorar, mas ninguém sabia do ovo cozido que estava no meio e quando nasceram doze pintinhos, ficando um único ovo gorado, justamente o que havia sido cozido, foi quebrado como de costume para ver se não tinha sido galado e, para surpresa nossa, foi encontrado dentro dele um pintinho igual a um pequeno frango assado. Claro que ninguém teve coragem de comer. Todos atribuíram à mandraquice do Saci – menos eu, que com essa travessura aprendi que ovo cozido não serve para chocar. Além de ser culpado por artes de moleque, pela sua própria natureza o Saci faz coisas que a gente considera brincadeiras, mas todas têm razão de ser, desde seu assobio, para espantar coisa-ruim, seu cachimbo de sabugo de milho ou de barro, com cano de taquarapóca, queimando fumo, carapiá ou cabelos de espiga de milho ou sempre espantando criaturas indesejáveis de onde habita.
Lembro que onde morávamos nunca aparecia mula-sem-cabeça. Na quaresma, eram vistas lá pelas bandas do beco das éguas ou no rego do Adão, mas jamais por perto de nós, que morávamos pertinho da igreja, seu local preferido de aparecer soltando fogo pelos olhos para queimar o padre Macaia, que tinha caso com algumas paroquianas – a Zazá, a gente sabia que era mulher do padre mesmo e que na quaresma virava mula danada. Todas essas criaturas ainda existem lá no fundo de uma grota chamada alma-da-gente. De vez em quando um Saci aparece, mas fica longe, lá no morro, junto do pé de sumaúma. A vista fraca num dá mais pra ver, só sei quando está lá porque sinto com o coração.


Barbacena, 22-09-2006


___________________________________________

Balaio do Saci | Histórias | Sítios de Saci | Aparições | Abaixo assinado | Ói Nois Aqui |
Só Falta Você  | Fique Saci

 
Eu vi um  |  Galeria do Saci  |  Principal