Paixão de Carnaval: José Arrabal
Verdade. Sou o que sou porque encontrei o amor eterno. Tatuado em mim esse
amor mudou meu corpo e me tornou assim feito sou para sempre.
Faz tempo. Mais de trinta anos. Era carnaval. Sábado de carnaval.
Na época, eu não passava de um molecão do morro da Mangueira,
forte e compridão, braços longos e mãos grandes, peito
nu, camiseta amarrada na cintura, metido em uma calça Lee desbotada
a cândida, presente que me dei por conta de minha aprovação
no vestibular de Direito da Federal Fluminense, o que não era pouca
coisa para um garoto de dezenove anos que nem eu, nascido e criado em subúrbio
carioca. Não era pouca coisa mesmo, porque naquele tempo tinha muito
menos vez para o povo do morro. Tinha nada.
Neto de mãe-de-santo, minha vó Jimiana, negro esperto, filho
de Xangô, no samba de rua da avenida Rio Branco, em meio à multidão,
com a boina vermelha da faculdade cobrindo minha careca de calouro, eu era
o rei do terreiro. Mostrava ao mundo que tinha valor e sambava com meu corpo
inteiro abençoado pela lua camarada plena e quente, naquele carnaval
de fevereiro, Rio de Janeiro em seus braços quero ver o Sol nascer.
Custo a crer. Verdade. Faz tempo. Era assim.
Daí é que perto da meia-noite tudo parou de vez. Bem de repente
o molecão da Mangueira, a cidade, o planeta, o universo, tudo cessou
e fez da vida um instante, quando meus olhos deram por ela em saia estampada
coberta com cores de flores, saia longa até o chão, cobrindo
o pé, mais blusa rendada leve e fina, solta em seus seios novinhos.
Alta e linda, mais que negra, mais que a noite, mais que a lua, brilhava com
seu sorriso incendiado por um olhar de labareda, braços e mãos
suspensos dançando em vôo com seus cabelos vermelhos. Era o que
era.
Vi e percebi que ela me via de onde dançava sozinha.
Tinha um modo estranho de sambar, ora aos pulinhos, ora em rodopios que nem
rodamoinho. Eis que veio assim. Chegou e parou por todo um tempo diante de
mim em miração de me levar, miração de amor.
- Quem é você? - inquiriu.
- Juliano da Mangueira Mar! Samba, sal e água para te amar! - sem muito
o que dizer, na hora arrumei esse jeito assanhado de me apresentar.
Claro que riu de mim. E me senti seu evidente prisioneiro.
Era Taí. A mais bela moça já vista por meus olhos.
- Então!? Vai ficar parado aí!? - rodopiou-me, tomando para
si a minha boina vermelha e ficamos noite inteira sambando.
Nunca fui tão feliz. Rapidinho aprendi a dançar com seus rodopios.
Sambei com Taí desde a Cinelândia até a Candelária.
E voltamos à Cinelândia, sempre dançando. Fomos ao Passeio
Público, com uma esticada à Lapa e aos Arcos, entre abraços
e beijos na mais barulhenta alegria.
Pegamos um baile quente num salão da rua Riachuelo, onde nos perdemos
um do outro, quando, em meio a nossos redemoinhos, pertinho do amanhecer,
Taí sumiu, se evaporou de mim. Levou com ela minha boina vermelha.
Dela só sabia o nome, que dançava samba aos pulos e rodopios
e que morava na Lagoa, bairro de ricaços. Foi o que me contou e nada
mais acertou comigo. Sumiu e nem se despediu.
Claro que queria reencontrá-la. Fosse rica, riquinha ou ricaça,
queria Taí. Custasse o que custasse, era o que queria, certo de que
ia conseguir.
Entristecido, retornei à Mangueira. Em casa, dormi até a tardinha.
Sonhei com Taí. No sonho, ela me trazia a boina da faculdade de Direito.
No sonho, também jurou jamais sumir.
À noite, desci com um povo do morro para a Presidente Vargas. Não
existia sambódromo, era domingo e cabia à Mangueira abrir o
desfile das Escolas de Samba na avenida.
Naquele ano não desfilei, por conta do vestibular que me impediu de
ensaiar, mas topei dar uma ajuda, uma força para o pessoal no transporte
de instrumentos e na organização das alas. E lá fui eu
todo verde-rosa rumo à cidade, de olho esperto à cata de Taí,
indo e vindo do desespero à esperança, agarrado à minha
intuição, pondo fé no sonho da tarde.
Quando a bateria da Mangueira alcançou o Colégio Rivadávia
Corrêa, um passo adiante da Praça da República, com os
tambores de meu coração acelerados vi Taí de pé
em uma arquibancada lateral. Trazia minha boina vermelha presa em seus cabelos.
Mangueirense de corpo inteiro, desta vez trajava blusa e saia longa, ambas
verde-rosa, claro.
- Juliano!!! Juliano!!! - gritou por mim, insistente.
- Taí!!! - e daí vi-me a seu lado.
Abraçados, fomos para a pista do desfile. Adentramos pelas alas da
Escola que nem vento rapidinho, com nosso modo de sambar só nosso.
Bem mais adiante, já na dispersão da Candelária, encerrado
o desfile da Mangueira, apresentei Taí a meu povo do morro. Instante
em que notei certo espanto nos olhos de minha vó Jimiana, santa baiana
da ala das baianas de nossa Escola de Samba. Susto que não entendi
e que só se esclareceu para mim na madrugada de quarta-feira, cinzas
derradeiras daquele carnaval. Faz tempo.
Não perdemos tempo. Da catedral da Candelária fomos para os
bailes de rua da avenida. Ocupamos a Rio Branco com o indo e vindo de nossa
felicidade até alta madrugada.
Não quis ir à Lapa, muito menos aos bailes da Lapa. Perto de
amanhecer, senti Taí um tanto tensa e tenso fiquei. Fui tomado pelo
temor de perdê-la noutro sumiço dela e foi o que aconteceu junto
à estátua do Pequeno Jornaleiro. Taí, num salto veloz,
livrou-se de meus braços. Rodopiando alcançou a rua do Ouvidor
na direção do Largo de São Francisco.
Claro que tratei de persegui-la em disparada, o que de nada adiantou. Ao dobrar
a esquina da Gonçalves Dias, Taí desapareceu.
De novo levara minha boina vermelha. Ainda assim, alcançou-me um desespero,
preso ao medo de jamais reencontrá-la.
Não retornei à Mangueira. Clareada a segunda-feira, rumei de
lotação para a Lagoa. Percorri todo o bairro a pé, rua
a rua. Em vão inquiri por ela onde fosse, em bares, botequins, pontos
de táxi, aos porteiros de prédios, aos passantes nas calçadas
e mesmo incomodei algumas casas à procura de Taí.
Entardecia quando voltei ao morro. Sentia-me destronado.
Não era mais o samba. Muito menos, o rei do terreiro. Não passava
de um tonto apaixonado por uma riquinha metida a besta que me usava e sumia
na hora de ir para os seus, guardada no conforto, prisioneira de sua arrogância.
Ela não podia fazer isso comigo. Eu era moço direito, estudante
de Direito, tinha futuro nas mãos. Claro, filho de gente pobre, mas
moço de boa família, povo correto, solidário, trabalhador.
- Riquinha orgulhosa! Quem ela pensa que é!? - no lotação
rumo à Mangueira, remoia minha saudade, ressentido...
... e controverso, claro... pois amava Taí, queria Taí comigo,
queria Taí pra mim, eternamente, a vida inteira, sim. De verdade e
sem mistério.
Logo que desci do lotação vi que todo mundo já havia
deixado o morro, ido para a cidade naquele segundo dia de desfile das Escolas
de Samba. Em casa só encontrei vó Jimiana a quem não
contei nada. Nem era preciso contar. De costume, ela sempre adivinhava.
- Essa moça não é gente feito você, Juliano! Melhor
esquecer! - principiou a falar, enquanto eu jantava o prato de comida que
mãe havia deixado em forno morno antes de descer para o desfile das
Escolas.
- Isso nós vamos ver, vó! - retruquei, sem vontade de assuntar.
- Não teima, minino! Sofrimento só presta quando tem razão
de ser! Onde já se viu!? Não está vendo que essa moça
não é gente feito você, meu filho! - ela insistiu.
Insisti, também.
- Teimo, sim, vó! Teimo, sim!
Bem mais teimosa do que eu, vó não vacilou:
- Que isso, Juliano!? Parece que você não enxerga que essa moça
é impossível pra gente!?
O jeito era desconversar.
- Que isso, vó!? Não existe impossível pra quem é
filho de Xangô e neto da mãe-de-santo mais sagrada da Mangueira!
Vou ser até doutor, vó! Doutor advogado! Não duvide de
seu Juliano, minha santinha Jimiana! - distraindo o assunto, brinquei com
vó e levantei da janta.
- Deixa de patacoada... Se gosta e quer a moça, tem que ser feito ela...
está se vendo. O que é difícil... pra mim, impossível!
- vó sentenciou.
Verdade é que precisava sair de fininho daquele papo sem esperança.
Com algum jeito, escapei para o meu quarto, onde deitei sem me banhar.
Vó Jimiana ficou resmungando na cozinha:
- É... Viver é aprender e aprender tem vez que dói...
E vai doer! Coitado de meu neto!
- Se tiver que ser, que seja, mas vou teimar, vó. Vou teimar! - pensei
comigo, teimando mais.
Dormi um punhado de tempo sem ninguém me amolar. Nem mesmo sonhei com
Taí. Só acordei com a barulheira do almoço, mais um povaréu
em casa com fé e crença de que a Mangueira seria a campeã
do desfile. Conversaria que distraiu meu mau humor e animou meu despertar,
quase enganou a tristeza.
Mais à tardinha, meu primo Geraldo Papagaio, falante que nem a ave,
apareceu com umas cervejas para gelar.
- Viva, Juliano! Onde se escondeu ontem à noite!? Sumiu, rapaz! - perguntou,
ao topar comigo na cozinha.
- Fiquei aqui mesmo. Pra mim chega de carnaval, Geraldão - respondi
sem esticar assunto, pegando as cervejas que ele trouxera para colocar na
geladeira.
- Que aconteceu, doutor!? É coração ferido, dor de cotovelo?
- provocou.
- Não amola, Geraldo! Vai cuidar da sua vida, vai! - não quis
papo.
- Está certo, cara... desculpe... esquece... Mas, se é por causa
da moça de domingo, noite passada ela estava na avenida...
- ... e falou contigo!? - inquiri, esperto.
- Que falou comigo nada. Estava lá, toda verde-rosa, saia rodada até
o chão, com sua boina vermelha na cabeça, sem dançar
com ninguém, só espreitando os cantos. Acho que procurava você.
Quem tem sorte não sou eu, né!?
Foi o que bastou. Larguei o mundo e num minuto me arrumei. Um pulo a mais
e alcancei o ponto de ônibus. Cheguei à Rio Branco no começo
da noitinha em meio a um mundão de gente que na avenida mais parecia
disposta a parar o tempo, segurar o carnaval da terça-feira que se
despedia, vizinha das malditas cinzas de quarta.
Atento a tudo, desci e subi a Rio Branco. Percorri às pressas um bom
pedaço da Presidente Vargas, andei pela rua Larga, cortei laterais
e travessas. Daí, voltei à avenida até a Cinelândia,
entrei na Evaristo da Veiga, rua das Marrecas, Passeio Público, cheguei
à Lapa, fui além dos Arcos, nos bailes da Riachuelo, fui à
Mem de Sá e nada de encontrar Taí.
- Se veio ontem e não me viu, hoje é que não vem - principiei
a me culpar por ter ficado em casa na segunda-feira.
Era quase meia-noite e cadê Taí?
Desconsolado, sentado num degrau da escadaria na porta do Teatro Municipal,
eis que silenciosamente alguém detrás de mim cobriu meus olhos
com as mãos.
- Juliano, sumido... - cochichou e beijou minha careca de calouro, que coroou
com a boina vermelha da faculdade.
- Taí! Taí! Senta aqui! - pleno e feliz, puxei Taí para
junto de mim no mais gostoso abraço de nossas vidas.
Sempre linda, ela vestia o mesmo saião de sábado, estampado
com cores de flores.
Ficamos um tempão agarradinhos, nos contando o que havia acontecido
no dia anterior. Contente, ria de tudo. Mostrou-se, porém, inquieta
quando lhe disse que havia procurado por ela na Lagoa, percorrido o bairro
rua a rua sem encontrá-la.
- Juliano! Juliano! Que perda de tempo! Você jamais vai me encontrar
por lá! - comentou, com olhar preocupado.
Surpreso com a resposta e bastante intrigado, sem muito entender nada de nada,
passei a reclamar de um punhado de coisas, de seus sumiços repentinos,
dos mistérios dela, enfim, de sua mania de brincar com meus sentimentos.
- Mas eu não brinco com seus sentimentos! É só carnaval,
Juliano! - contornou.
Claro que a resposta me enervou.
- Pois é! Mas, para mim, não é assim! E não é
só carnaval! Eu gosto e quero namorar direito com você, Taí...
- retruquei.
- Também gosto de você, mas isso não vai acontecer, porque
não pode acontecer! Entre nós é só carnaval, Juliano...
- E por que não pode!? - reagi, contrariado.
- Não pode porque não pode, Juliano! - foi definitiva, ainda
que me parecesse sem brilho nos olhos, com voz embargada.
- Mas, por que? Por que? Porque você é riquinha e eu sou pobrão!
- pressionei.
- Claro que não! - respondeu sem me encarar.
- Então, por que? Você já é casada? - suspeitei.
- Não! Não é isso, não! - foi taxativa.
- E o que é, então!? Fala! Diz de vez! Pára de fazer
mistério, Taí! - queria dela uma decisão.
Mirou-me nos olhos e vi lágrimas nos olhos de Taí, ali, na escadaria
do Teatro Municipal, diante de todo um mundão de gente sambando na
avenida, em pleno carnaval de rua do Rio de Janeiro, em fevereiro.
Faz tempo... mais de trinta anos... faz!
- Vem comigo, Juliano, vem... Vamos sair daqui... - minguante em noite de
lua cheia, Taí pôs-se de pé e me levou de lá abraçadinha
a mim.
Tinha um jeito meio trôpego de andar e mais parecia que ia cair. Na
hora, cuidei de ampará-la.
- Pra onde você quer me levar? - perguntei.
- Vem comigo... vem... - respondeu, quase sem voz.
- Para atravessar essa multidão só sambando com nosso jeito
de sambar... Que tal !? Vamos!? - procurei ser carinhoso, diminuir a tensão
entre nós e bem que deu certo.
Fomos sambando até o Museu de Arte Moderna, no outro lado da avenida
Beira-Mar.
Sentou-me em um banco, no jardim detrás do museu.
- Fica aí... fica aí... - e pôs-se de pé diante
de mim sob a luz de uma Lua que nos via assustada que nem vó Jimiana
nos viu com espanto ao conhecer Taí domingo à noite na dispersão
da Candelária. - Quer mesmo saber porquê não posso namorar
você....
- Claro que pode... claro que pode... você gosta de mim e eu gosto de
você... claro que pode... - reagi, aflito.
- Não posso, Juliano... não posso... sabe porquê ?
Daí, levantou sua saia longa até a altura do joelho e me fez
ver o que jamais imaginei existir.
- Pois é... não sou gente, Juliano. Sou ser encantado. Moça-saci...
Faz tempo. Mais de trinta anos e ainda sinto o sabor da surpresa que naquele
instante desesperado invadiu meu corpo.
Abraçados, choramos um tempão sob a sombra pesada do Museu de
Arte Moderna. Não muito longe, na Rio Branco, o mundo se despedia vagarosamente
daquele carnaval que principiava a terminar: a noite é linda, nos braços
teus é cedo ainda pra dizer adeus, vem, não deixes pra depois,
depois, vem, que a noite é de nós dois, nós dois, vem,
que a lua é camarada, em teus braços quero ver o sol nascer....
- Viu? Não sou rica, nem casada. Sou só moça-saci e gosto
de você, Juliano... tanto quanto gosta de mim... desde a primeira vez
em que nos vimos - com a tristeza de quem se desculpa, Taí passou a
se explicar em detalhe.
Contou que moça-saci é um ser raro no mundo dos seres encantados,
sendo filha da paixão de um saci por mãe d'água de água
doce, com quem esse saci se casa e vive história de amor feliz. Adiantou
que vivia com seus pais em local de encantamento no mais profundo mistério
da lagoa Rodrigo de Freitas. Que às vezes vinha à terra, mais
para se divertir. E que ao me perceber na Avenida Rio Branco, por conta de
minha boina vermelha, sua semelhança com o barrete rubro dos sacis,
imaginou que eu fosse um saci.
- O mais belo saci visto por meus olhos - considerou.
Revelou que muitos sacis se disfarçam e vivem entre os seres humanos,
até casados e com famílias.
- Você rodopia tão gostoso no samba, Juliano, que custei a acreditar
que era um ser humano - riu um tanto constrangida. - Quando acreditei, já
havia me afeiçoado a você sem conseguir que o esquecimento me
libertasse desse amor.
Acrescentou que os sacis são festeiros, bons e sensuais de coração.
Que dentre os seres encantados do mundo dos mistérios são os
que sempre vivem para a alegria e a felicidade, desde molecotes. Que há
sacis no mundo inteiro, entre todos os povos, com modos, jeitos e aparências
de cada povo.
- Na Argentina, os sacis são louros. No Paraguai, também. Em
Portugal, são elegantes, cuidadosos no vestir, até usam bota.
Os da Alemanha adoram beber cerveja. Os de olhos amendoados das terras do
Oriente são sacis belíssimos. Já os brasileiros são
muito brincalhões, os mais felizes sacis do mundo, amados por todo
o povo do Brasil. Verdade, Juliano! - daí, calou-se um tempo, abraçada
em mim.
Beijou meus olhos, meus lábios, minhas mãos.
- ...mesmo assim, são rigorosos os costumes dos sacis... - comentou,
então pouco à vontade. - Uma de nossas leis, Juliano, proíbe
moça-saci de amar e fazer amor com moço-homem...
- Quê isso, Taí!? Não pode ser assim! Pra tudo dá-se
um jeito... - contestei a controvérsia.
Reconheceu que se tratava de lei injusta e desigual, mas costume sem mudança.
- Um saci pode amar e fazer amor com moça-mulher. Moça-saci
não tem a mesma liberdade com moço-homem. É sim... também
entre os sacis a lei do macho desfavorece a fêmea - comentou. - E esse
costume que nos impede, Juliano, é sem conserto. Não há
o que fazer...
- Ora, pois sim! Eu mudo essa lei! Não aceito e não cumpro essa
lei, Taí! Pronto! É o que vamos fazer! - teimei, decidido.
Tirou de mim a boina vermelha, passando a usá-la. E ficou de pé,
entre sorrindo e triste, não menos bela. No céu, a lua era uma
luz tão viva que parecia nos abençoar. Quem sabe!?
- Não pode! Não pode! - Taí também teimou por
seu caminho. - Minha mãe costuma dizer que um amor, se tramado antes,
já escrito para sempre no destino dos amantes, bem antes do acontecido
no encontro dos que amam, um amor assim... um amor eterno... pode quebrar
costumes... mesmo de sacis... Mas não pode! Não pode, Juliano!
Não pode... - e mais veloz que o nunca, rodopiou, fez-se redemoinho,
partiu, sumiu.
Abandonado em desespero, não sei o que fiz no decorrer daquele dia
de cinzas. Perdido de tudo, perdido até de mim, só me recordo
que cheguei à Mangueira à noitinha, com o morro festejando a
Escola campeã.
Claro que não quis saber de festa. Na encolha, guardei-me em meu quarto.
Fui dormir sem banho, sem janta, prisioneiro da saudade, no amor eterno desvivido.
Se não desesperei de vez e de vez não sumi com minha vida, foi
tão somente por Taí ter levado consigo minha boina vermelha,
em mim rubra esperança de seu retorno um dia, o que me manteve vivo
desde aí.
Nos meses que se seguiram, decerto fui tratar da vida, mas não passava
de um molecão ensismesmado, calado no indo e vindo da Mangueira à
faculdade e de lá até o morro. Percurso compulsório em
que a todo instante, sobressaltado, alucinado, via Taí em todos os
rostos. Em todas as pessoas do mundo. Taí sendo todas as pessoas do
mundo para mim.
Já nos sonhos sempre via vó Jimiana, mãe-de-santo sábia
e santa:
- Se gosta e quer a moça, tem que ser feito ela! - teimosa, sussurrava
atormentado acerto sem mais me ensinar.
Precisava vislumbrar o que fazer. E assim fevereiro fez-se março, abril,
maio, junho. De agosto, não demorou a alcançar dezembro. Às
pressas chegou ao carnaval do ano seguinte com lua crescente.
Na semana anterior, semana de lua nova, fui tomado por torpor jamais sentido.
Mudado por dentro ao longo do ano, agora só dormia, detido num sono
em que exigente força estranha transformava meu corpo.
Decerto é sabido que, para o mal ou para o bem, o amor eterno muda
o corpo da gente. Entorta, quando esse amor se perde. Conserta, se teimamos
a favor desse amor para sempre conforme o destino escreve sua história.
Verdade. Sou o que sou porque não se perdeu em mim o amor eterno. Nem
em Taí. E faz tempo que me tornei assim feito sou.
Ao despertar do longo sono da lua nova, no sábado à noitinha,
já com lua crescente no céu, não estranhei a metamorfose
em mim. Nem mesmo estranhei a presença de minha boina vermelha sobre
a mesinha do quarto na cabeceira da cama. Cuidei de levantar e me vestir.
Sentia-me alegre, um molecão bonito, divertido, brincalhão,
mais pleno do que antes, evidente.
Sem que ninguém me visse, saí de casa pela janela do quarto.
Num pulo desci o morro da Mangueira. E num só redemoinho alcancei o
povo na Rio Branco. Levava comigo a minha boina. Daí, sambei, sambei,
sambei até pertinho da meia-noite. No exato instante lá estava
ela à minha espera:
- Taí ! Minha Taí !
- Juliano, meu saci !
Rapidinho passamos a rodopiar nossa felicidade feito vento vivo no carnaval
de rua da avenida: Eu sou o samba! A voz do morro sou eu mesmo, sim, senhor!
Quero mostrar ao mundo que tenho valor! Eu sou o rei dos terreiros... Para
milhões de corações brasileiros!
SP/SP 2007
José Arrabal é jornalista e escritor, autor de contos, novelas
e romances. Entre suas obras, sobressaem "O Nacional e o Popular na Cultura
Brasileira:Teatro" (Editora Brasiliense), "A Princesa Raga-Si",
"O Livro das Origens", "Lendas Brasileiras, Vol 1/Vol. 2"
e "Cacuí O Curumim Encantado" (Editora Paulinas), "A
Ira do Curupira" (Editora Mercuryo Jovem), "O Noviço",
"Demeter, A Senhora dos Trigais", "O Monstro e a Mata"
e "O Nariz do Vladimir" (Editora FTD), "Histórias do
Japão" (Editora Peirópolis) e "Anos 70 - Ainda Sob
a Tempestade" (Aeroplano Editora). E-mail: josearrabal@uol.com.br [Paixão
de Carnaval - Conto publicado na revista DIRECIONAL ESCOLAS/fevereiro-2007
e no site www.cronopios.com.br
/ Copyright José Arrabal ]
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