O Saci -- José Mattos (poeta mato-grossense)
Certa vez eu me embolei com ele. Primeiro vasculhei o pomar. Fui além do chiqueirão dos porcos. Perambulei às margens do Tamanduá atolando os pés no barro. Segui o rego dágua, contra a corrente. Encontrei-a meio enterrada à beira do curral. Agitei-a com areia grossa até ficar clarinha.
Depois de ter encontrado a garrafa, saí na captura de uma peneira. Dei voltas e mais voltas até pegar o trieiro rumo ao rancho de meu padrinho, José. Cheguei descabriado. Já havia articulado o embuste.
– Sua benção, padrinho.
– Deus te crie. Que vento te traz por essas aragens?
– É da parte de minha mãe, padrinho. Carece uma peneira emprestada pra banar feijão.
Ele me olhou de um jeito que eu desconhecia. Meus joelhos se bateram. Despedi-me suando. O sol queimava a cabeça e os pés. Quase meio dia. Era chegada a hora.
Ansioso, espreitei o redemoinho que apontou na porteira da manga e encaminhou-se pela estradinha de terra na minha direção. Quando ele chegou perto, mas, bem pertinho mesmo, eu saltei dentro da roda com a peneira de feijão e a garrafa branca. Apanharia ele com a peneira e o trancaria na garrafa. Assim, me ajudaria a comprar um cavalo só pra mim. Em troca, eu o soltaria no próximo rodamoinho.
A balbúrdia arrancou minha mãe da lida. Veio esbaforida ter comigo no meio do terreiro:
– Tá aluado da cabeça; querendo pegar saci pelo rabo?
Fiquei bravo por ela ter espantado o saci com aquela gritaria. E lá se foi o redemoinho, com o saci rodando dentro, levantando um poeirão. Rindo de mim. Sem meu cavalo, emburrei-me por uns dias. Meu pai mudou as histórias.
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