O Saci nos tempos esquisitos
O companheiro Virgílio que me perdoe, mas, na maior inocência, ele foi engrupiado pelo Saci.
Na realidade, o Saci nunca foi militante da AL, embora, já no final
da década de 70/início da década de 80, tenha manifestado
sua simpatia e, inclusive, uma certa identidade de posições
com alguns companheiros egressos daquela organização e do Molipo.
A verdade é que a formação do Saci teve início
na Juventude Comunista. O Leôncio Basbaum chega a fazer referência
a esse período, apesar de não o citar nominalmente. No início
da década de 60, desencantado com as teses reformistas defendidas pelo
Partidão, o Saci aproximou-se do núcleo, dissidente de Ação
Popular, que viria a fundar o PRT. Sabe-se que não foi aceito. Mas
há controvérsias: uma das versões é de que a recusa
teria tido como pano de fundo divergências de ordem ético-clericais.
Dizem, inclusive, que a posição do padre Alípio teria
sido autoritária e intransigente.
Rejeitado e um tanto frustrado o Saci teria, então, procurado
um velho amigo e companheiro, ex-militante do Colina. Na época no MRT,
esse companheiro, que vivia em Minas, teria chamado o Saci para participar
de uma ação em Divinópolis, o que ele teria rapidamente
aceito não se sabe bem se por mero voluntarismo, ou se, em função
do nome daquela aprazível estância, para fazer pirraça
com o padre Alípio. Aí, novamente, há mais de uma versão
para os fatos. Segundo uma delas, ao ver o Saci com um três oitão
apontado para sua cabeça, o gerente do Banco Nacional teria exclamado:
Você não existe! Já numa outra versão,
quando o comando chegou ao local, estaria ocorrendo um coquetel de confraternização
de fim de ano, inviabilizando, dessa forma, a ação de expropriação.
Irritado com a pisada de bola cometida pelo pessoal da organização
responsável pelo levantamento, o Saci teria comentado: Isto não
existe! De uma maneira ou de outra, teria sido essa a participação
do Saci no Tiradentes.
Entretanto, segundo o Cid Benjamin, ele teria entrado em contato com seu irmão
Leo, na Faculdade de Medicina, buscando marcar um ponto com alguém
ligado à DI. Ocorre que, justamente nessa época, caiu uma porção
de gente da Medicina ligada à Dissidência, na Praia Vermelha,
e o Saci foi obrigado a se refugiar numa geladeira. Foi nessa geladeira, na
Tijuca, que o Essepê nome frio que usava conheceu um companheiro
da VP, provavelmente aquele que o Zé Roberto mencionou a você
(eu poderia apurar isso direito com a Dirce, mas acho que não carece).
O fato é que, assim como se passou com a AL, o Saci não chegou
a ser quadro da VP. Ele tinha até uma visão bastante crítica
das Teses do Jamil, principalmente a segunda e a terceira, o que me parece
que chegou a discutir com o capitão.
Já no final da década de 70, confirmo a informação
que você dá sobre sua participação no CBA e ainda
acrescento que foi muito atuante na campanha das Diretas Já. Esta é
a trajetória do Saci na esquerda brasileira conforme a conheço.
PS: Sei que rolam histórias de uma suposta participação
do Saci nas FAR-Montoneros, Argentina, e no MLN, Uruguai. Desconheço
se procedem, embora o tenha perguntado ao Fernández, que também
o ignorava: Y como cuernos lo podría saber? Yo estaba en el pozo,
hombre! (durante dois dos onze anos que esteve preso, Eleuterio Fernández
Huidobro, dirigente tupamaro, passou dois deles num buraco, incomunicável).
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