O Diabo da Tasmânia e o Saci de Rio Claro


Este causo muito antigo me foi contado por uma pessoa que, por ser ela ainda viva, necessário se faz chamá-la pelas iniciais de seu nome, o Sr. J.L.T., morador tradicional da cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo.

Foi no começo dos anos de 1900, aí por volta de 1910, quando o jovem agrônomo Edmundo Navarro de Andrade, o pai da eucaliptocultura no Brasil estava trazendo, da Austrália, as primeiras plantas de eucalipto que vieram formar os antigos hortos da Companhia Paulista de Estrada de Ferro.

Um desses hortos florestais situava-se no município de Rio Claro, então um importante centro ferroviário, onde Navarro de Andrade fez plantar milhões de mudas de eucalipto, cujas sementes trazia da Austrália em longas e demoradas viagens de navio à vapor.

Conta o Sr. JLT, que numa das viagens, quando Navarro de Andrade trouxe sementes de Eucalyptus globulus obtidas na Tasmânia, ocorreu de vir, escondido num dos grandes baús que eram utilizados para acondicionar a preciosa carga, nada mais nada menos do que um filhotinho de Diabo da Tasmânia.

O tal diabinho, assim que se viu em terra e liberto da incômoda embalagem, ganhou o mato e nunca mais foi agarrado por ninguém, por mais experientes que fossem os caçadores que lhe foram ao encalço. Daí em diante, foi um tanto de sumir criação que não parava mais. Era pato, galinha, peru e até cachorro que andou desaparecendo, tudo se dando por conta do Diabo da Tasmânia.

Um belo dia foi visto o rastro do diabinho desaparecendo no meio de uma grande moita de taquaruçu. Não havendo sinal de luta, nem do que pudesse atestar o sumiço da criatura estrangeira, passou-se a acreditar que aquilo tinha sido obra do Saci, pois que era sabido de todos que naquele local imperava uma sacizada medonha, useira de assustar quem quer que ousasse passar por ali em qualquer hora do noite.

Quem hoje visitar o Museu do Eucalipto que existe dentro do Horto de Rio Claro, pode ver ali em exibição uma rica caixinha de jóia completamente vazia, a qual deveria conter a Medalha do Mérito Americana, jóia que fora conferida pelo governo dos Estados Unidos ao glorioso Edmundo Navarro de Andrade, sendo certo que esse sumiço não pode ser atribuído ao Saci.

São Paulo, 20 de maio de 2009
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br


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