Os Sacis e a girafa da Ilha Anchieta



Ainda me iniciava na lida de encontrar algum Saci, começando a colecionar causos de suas aparições, quando se deu o acontecimento agora narrado, esclarecendo que o seu contador já se foi a ver Sacis no outro mundo.

Trabalhava e morava na Ilha Anchieta, que fica no litoral norte de São Paulo, em Ubatuba, nos meados da década de 1980. A ilha foi transformada em parque estadual em 1977 e, de morador mesmo, só havia eu, enquanto os demais funcionários que trabalhavam na vigilância e na manutenção, em número de dez, se revezavam semanalmente, indo e voltando do continente.

A energia elétrica que fornecia uma iluminação precária, o suficiente apenas para uma dúzia de lâmpadas e um televisor, era fornecida por um gerador movido por uma diminuta turbina hidráulica, cuja água provinha de uma pequena represa situada por detrás das ruínas do antigo presídio, pois que a ilha fora um estabelecimento penitenciário até 1954, o que se desfez em razão de uma grande rebelião que ali ocorreu, resultando em muitos mortos, entre presos e funcionários civis e militares.

Como a água da represa não era suficiente para manter a turbina em funcionamento a noite toda, para evitar que ela se entupisse com a sujeira do fundo da represa, o que demandaria grande trabalho de limpeza, fazia-se necessário que um funcionário ficasse encarregado de fechar o registro,o que se fazia sempre por volta das dez horas da noite, após que se tivesse visto a novela e o noticiário da televisão. Para isso, era necessário caminhar cerca de duzentos metros até a cabine de força que ficava ao pé do morro da represa, passando-se por um pequeno trecho com vegetação mais fechada.

Toda vez que esse encargo recaia sobre o guarda Pedro Evangelista, que nada tinha de parentesco comigo, a turbina ficava entupida de sujeira, pois que não houvera sido fechada com a antecedência necessária.

Uma dada vez, isso se repetindo e sendo eu o chefe do parque, tive que ter uma séria conversa com o velho guarda, um dos mais fiéis cumpridores da ordem de se fazer registrar as observações de animais encontrados na Ilha Anchieta, para o que eram utilizadas pequenas fichas de bolso, as quais serviam de dados para uma pesquisa sobre a fauna silvestre insular, estudando-se, dentre outros, os hábitos alimentares dos bichos observados, dentre os quais predominavam as capivaras, encontradas sempre aos bandos.

Como explicação pelo renitente relapso, o velho guardião florestal afirmou que tinha muito medo de ir desligar a turbina, uma vez que, sempre que se dirigia para a cabine, era abordado por uma turminha de Sacis que lhe cercavam o caminho e impediam-no de cumprir sua obrigação, fazendo-o voltar para o alojamento em desabalada carreira.

Nunca havia duvidado do Seu Pedro Evangelista, até que um dia li numa de suas fichas de observação que ele havia avistado uma girafa, no caminho do Saco Grande. Na ficha estava escrito com "j" o nome daquele enorme animal exótico. Indagado se aquilo era possível, um animal de pescoço tão comprido vivendo ali no meio daquele mato todo, o velho guarda emendou logo, sem pestanejar: "estava agachada, pastando...".

Confesso que esse episódio me lançou um pouco de dúvida sobre a veracidade das fichas até então preenchidas pelo finado João Evangelista, mas nas histórias que ele contava de ver os Sacis na grotinha, perto da cabine de força, isso eu nunca deixei de acreditar, ainda mais que o meu saudoso companheiro era dado a emborcar uma garrafa inteirinha de cachaça em cada turno de vigilância naquele isolado parque, tão povoado por espíritos martirizados e aterradores, do tempo que a ilha abrigava um pavoroso presídio.

São Paulo, 21 de maio de 2009
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br


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