O SACI caiçara e o Guaiamu de saco roxo de São Sebastião


Recentemente, um grupo de especialistas da Petrobras foi visto em acurada inspeção pelo Canal de São Sebastião. O seleto comitê de estudiosos estaria em missão de vanguarda, realizando os preliminares estudos sobre um grande projeto da empresa, o que poderia ser um novo porto para desembarque de petróleo e gás.

Os diligentes estudiosos, formando alegre grupo de bem uns quinze homens e mulheres, navegaram pelo canal a bordo do barco Rebelo XV, conduzido para lá e para cá sob o as ordens do Comandante Victor. O grupo também foi visto inspecionando, em terra, a orla da Ilhabela, passeando entre as praias Feiticeira, Grande e do Curral, assim como na parte continental, demorando-se por entre as prainhas, mangues e costeiras da baia do Araçá, locais em que se detinham para fotografar e entrevistar alguns moradores, donde surgiram os fatos aqui relatados.

Se foram pesquisar petróleo, gás ou coisa parecida, isso não passou de conjecturas em que restaram ensimesmados os moradores locais, tanto de Ilhabela, quanto de São Sebastião. O mais intrigante é que a curiosidade dos técnicos da Petrobras teria recaído sobre dois aspectos relacionados com a história natural e social local: o Saci Caiçara e o Guaiamu de Saco Roxo.

Na expedição científica foram encontrados fortes indícios da presença do Saci em São Sebastião, até mesmo podendo servir de elo de ligação com o Saci de Ilhabela, cujo aparecimento já foi descrito pelo Sr. Daniel Brazil, acerca de um caso havido em 2004, conforme consta registrado no site da SOSACI (www.sosaci.org), havendo que se verificar nesse mesmo endereço o relato sobre um tal Saci Petroleiro, já este na banda continental e com o fato relatado tendo ocorrido mais recentemente, em 2007.

Os estudiosos, ao que parece, encontraram várias pegadas, ora apenas de pé direito, ora só de pé esquerdo, indicando que tais rastros poderiam ser do Homo sapiens unipede V. caiçara, cuja primazia da descrição vem sendo reivindicada por especialistas da área.

A explicação para a existência do Saci, tanto em Ilhabela, quanto em São Sebastião encontra lugar na história da Laje dos Moleques, um punhado de rochas afloradas no canal e que, antigamente, teria a denominação de Laje dos Sacis. Assim é que, pela metade do Século XIX, com a proibição do tráfico de escravos, os portugueses faziam desembarcar, às escondidas, suas cargas de negros na baia de Castelhanos, assim como no Bonete, no costado oceânico da Ilha de São Sebastião, fazendo os grupos da pobre gente atravessar a ilha a pé e irem ter nas praias do sul do canal, de onde, em barcos pequenos, transpunham-se para terra, na altura da baia do Araçá, bem perto de onde se situa a atualmente denominada Laje dos Moleques.

Ao passarem pela laje, as mães escravas atiravam na água seus filhos pequenos, os quais eram agarrados e protegidos pelos moleques maiores, buscando abrigo e refúgio em meio às pedras marítimas. Ali os meninos escravos permaneciam escondidos, até serem resgatados pelos caiçaras que freqüentavam as piscosas águas do lajeado. Ao que parece, teria surgido desses heróicos primeiros moradores a lenda de que a laje era povoada por Sacis, que tinham o poder de colocar a pique qualquer embarcação que de lá se aproximasse, em casos que eram contados aos traficantes lusitanos e mesmo aos piratas ingleses e holandeses que freqüentavam aquelas águas em busca de negros fugidos.

Posteriormente, já na metade do século passado, é que a Laje dos Sacis passou a se chamar Laje dos Moleques, até guardando uma proximidade sinonímica entre as duas denominações, uma vez que os diabretes também são conhecidos como moleques pernetas.

Como indícios vários e congruentes constituem prova, resta crer na existência do Saci Caiçara, cujos testemunhos atuais são os indivíduos mais recentemente avistados, tanto em Ilha Bela quanto em São Sebastião.

Outra observação científica, fruto da expedição comentada, vem a ser o relato do encontro de novos indícios do guaiamu de saco roxo na baia do Araçá, em São Sebastião, cujas primeiras narrativas remontam ao início da década de 1990, coincidente com a época de conhecido mandatário pátrio oriundo das Alagoas.

Primeiramente narrado naquela ocasião de perversa lembrança política e econômica, o guaiamu de saco roxo (Cardisoma guanhumi scrotus rosalia) teria sido visto, também, saindo de suas tocas, entre espécimes de mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue branco (Lagumularia racemosa) e siriúba (Avicennia schaueriana), o que não teria sido possível constatar pelos excursionistas, em razão do horário vespertino e do curto período de observação.

O fato é que os moradores locais andam dizendo que o pessoal da Petrobras teria estado por lá para estudar, afora as coisas ligadas ao petróleo e gás, também, sobre o Saci e o guaiamu de saco roxo, o qual, segundo consta, costuma aparecer somente em noites especiais, alumiadas pela lua cheia, quando, também, se fazem brilhar intensamente os tremulantes braseiros dos olhinhos dos diabretes na Laje dos Moleques.


São Caetano do Sul, 17 de março de 2008
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br


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