O Saci e o tênis
Muito eu já ouvi falar de Saci, colecionando centenas de histórias e causos dos mais incríveis. Com isso, fui formando uma forte convicção na existência desse negrinho de uma perna só que anda por aí aprontando peraltices por todo lado, tanto na roça quanto na cidade. Mas ver mesmo, eu nunca vi um Saci.
Mesmo sem nunca ter visto um, não posso deixar de acreditar na existência do Saci, e conto aqui um a causo que vem reforçar as crendices que trago desde a infância, embalada nas deliciosas histórias dos livros de Monteiro Lobato.
Dias atrás, com as facilidades oferecidas pela Internet, resolvi comprar um tênis novo. Feita a escolha da loja de venda virtual, a minha preferência recaiu sobre um modelo denominado Olimpicus Montain, escolhido na cor preto com chumbo.
Ontem, ao chegar do trabalho, encontrei a encomenda trazida pelo correio. Removida a embalagem e aberta a caixa, quando me preparava para experimentar a nova aquisição, fiquei surpreso ao verificar que os dois pés eram do mesmo lado, o esquerdo
De imediato, liguei para a loja, cujo nome pretendo aqui resguardar. Atendido por uma voz feminina muito atenciosa, expliquei o estranho ocorrido, sendo-me solicitado para aguardar o retorno da ligação. Dentro de instantes, a pessoa me retornou o telefonema confirmando o engano na expedição do produto e prontificando-se a trocá-lo mediante a devolução pelo correio, cuja despesa a loja assumiria.
Retornei o produto para a embalagem e a fechei novamente, recuperando o embrulho na forma que o recebi, até o fechando com fita adesiva. Deixei a encomenda em cima da mesa da sala, disposta de forma a não me esquecer de levá-la na manhã seguinte, que seria hoje.
Deitei-me cedo, como de costume. Em meio da noite, por volta das quatro horas da madrugada, acordei com um ruído que provinha da sala. Pensei que fosse a janela deixada aberta e que fazia a veneziana bater com o vento.
Acontece que o barulho persistia, causando um incômodo que me impedia de reconciliar o sono. Resolvi, então, levantar para fechar a janela de vidro e acabar com aquele barulho irritante.
Qual não foi a minha surpresa ao verificar que a janela estava muito bem vedada e que, sobre a mesa, o embrulho havia sido desfeito, fazendo ver os pés de tênis revolvidos dentro da caixa completamente aberta.
Evidentemente, não consegui mais dormir nesta fria madrugada. Refiz o embrulho, vedando-o novamente com fita adesiva e vou, agora pela manhã, providenciar a sua troca.
Antes disso, registro aqui a minha mais forte crença de que o ocorrido com o tênis não pode ser resultado de outra coisa, se não obra do Saci, ou melhor, de dois Sacis, que fizeram com que os calçados me chegassem com os pés trocados, prontinho para serem usados por eles.
São Paulo, 28 de agosto de 2009
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br
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