O Saci roncador de Picinguaba

Quando menino, pouco após a abertura da Rodovia Rio Santos, nos idos de 1970, eu costumava passar as férias escolares na casa dos meus tios Antonio e Teresinha, na Praia da Fazenda, localidade de Picinguaba, no município de Ubatuba, bem perto da divisa com o Rio de Janeiro.
Juntamente com um irmão mais novo e um primo, dormíamos num quarto disposto no fundo de um corredor. Para se ir ao banheiro, era necessário passar por outros dois quartos, sendo um onde dormiam os meus tios, enquanto que o outro era ocupado pelas minhas duas primas.
A casa localizava-se a duzentos metros da praia, bem no meio da mata fechada e o tio Antonio gostava de contar histórias de criaturas que povoavam aquelas florestas, dentre elas o lobisomem, o curupira e o saci. Dizia que, exatamente no local onde a casa foi erguida, havia uma grande moita de bambu, a qual, tendo sido cortada para dar lugar a moradia, teria feito com que os sacis que ali moravam ficassem irritados, passando a molestar os freqüentadores, em especial os visitantes, destacando esse detalhe para ainda mais assustar os sobrinhos.
Recordo-me das tantas vezes em que acordava em meio da noite e ficava reprimindo a vontade de urinar, temendo ir ao banheiro, ouvindo um forte ronco que provinha do corredor. Meu tio dizia que era o saci roncador, grunhindo de raiva pela perda da moita de bambu.
Por força dos estudos, passei longos anos sem freqüentar a adorável casa de Picinguaba, somente voltando a estar na Praia da Fazenda já passando dos trinta anos. Na primeira noite do meu retorno, após umas gostosas partidas de buraco, fomos dormir bem tarde, já de madrugada. Antes de me recolher ao quarto, fui passear um pouco na praia, aproveitando a noite encalorada e apreciando o céu completamente estrelado.
Madrugada em meio, voltei para a casa onde encontrei a minha tia ainda sentada na sala, assistindo televisão. Ao me ver, ela exclamou: "Ah! Não agüento mais esse ronco do seu tio, está ficando cada dia pior". De fato, o barulho fazia estremecer a casa toda.
Foi quando me veio à mente as antigas histórias do saci roncador.

João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br


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