O SACI VESTE KENDALL

 

Já havia me sucedido de um par de tênis, que adquiri recentemente pela Internet, me ter chegado com os dois pés do mesmo lado, causo esse que já contei. Mais agora, de pouco, me aconteceu outro causo esquisito que muito me incomodou e que me deixou muito intrigado e inquieto com essas coisas de Saci, deixando bem claro que, por tanto que já procurei, eu nunca vi sequer um desse ente perneta, embora creia na existência do tal por muito que já ouvi falar e nunca haveria de duvidar.

Depois de passar por algumas crises de erisipela, sendo que a última delas me deixou por três semanas internado no Hospital Nove de Julho, resolvi usar as tais meias elásticas, que antes achava fosse coisa de mulher. Isso mesmo, porque o médico infectologista as receitou dizendo que era para combater o inchaço das pernas e para favorecer a circulação já um tanto precária em razão da idade e mais alguns acidentes sofridos.

Desse modo, passei a usar as meias Kendall “masculina” ¾, de média compressão, conforme receitado pelo médico, Dr. Gustavo, esclarecendo que escolhi essa marca por recomendação de gente conhecida e, também, porque encontrei delas mais barato numa ida às compras na Rua 25 de março, onde adquiri logo três pares, o que valeu bem a pena, pelo tanto de descanso e alívio que passei a sentir nas pernas erisipeladas.

Como a quantidade comprada não dava para o uso da semana toda, me obrigava a lavá-las de dois em dois dias. Fazendo isso, punha as quatro peças de meias penduradas no varal sustentado no teto da pequena área de serviço do apartamento, que fica no 13º andar do prédio em que moro, no Cambuci.

Num desses dias, ao chegar em casa, minha mulher me perguntou se eu tinha lavado apenas três meias, pois eram só essas que ela tinha recolhido do varal, já secas. Fiquei logo preocupado com aquilo, temente do prejuízo e com a certeza de que havia pendurado os quatro pés de meia, correspondentes aos dois pares que havia posto de molho e, depois, lavado.

Por dentro de casa, procuramos em todos os lugares possíveis da meia haver de ter caído: em baixo do tanque, da máquina de lavar e dos armários da cozinha, até atrás da geladeira e do cesto de roupas sujas, locais onde seria mais possível ter sido a meia atirada pelo vento, de vez que a ventania sempre sopra de fora para dentro do apartamento, entrando pelas janelas e saindo pelo vitrozinho do banheiro que dá para lugar entre quatro paredes, e de onde não pode vir aragem forte. Assim é que, sempre que chove, temos que correr a fechar as janelas todas, inclusive da área de serviço.

Esgotadas as possíveis e imaginárias situações de se encontrar a meia perdida dentro de casa, fomos à procura dos funcionários do edifício, dúzia deles, aos quais perguntamos sobre a meia, se pudesse ter caído pela janela da área de serviço, que se coloca de frente para o pátio de estacionamento. Até gratificação prometemos, mas nada de encontrar a meia.

Passados uns meses, continuo inquieto e intrigado com esse acontecido, mas não me sai da mente que esse pé de meia me foi tirado pelo perneta, feito o tênis que me fez vir trocado.

Espero que o Saci que me pegou essa meia tenha feito isso só por brincadeira, e que não esteja padecendo de erisipela na sua perna única. Mais certo de explicação é que, como num filme que passou pouco tempo atrás: se o diabo veste Prada, o Saci veste Kendall.

São Paulo, 17 de janeiro de 2010.

João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br



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