Saci Mi


Dilair Aguiar

Era madrugada e eu acabara de deixar minha namorada em seu apartamento, na Liberdade. Estava subindo a rua Galvão Bueno quando ouvi um “Arô!”, vindo do laguinho das carpas. Detrás de uma pedra, pula uma criatura muito peculiar, para dizer o mínimo: baixinha, uma perna só, a pele bem escura e um pito na boca. Se não fossem os olhos puxados e a faixa com o sol nascente em lugar do barrete vermelho, eu juraria que se tratava de um Saci.

“ Tabako tcho dai ?”, me perguntou. Ao ver que meu nihongo não dava para tanto, ele traduziu: “Será qui cê pode arumaru cigaro?”. Entreguei-lhe alguns do meu maço e, enquanto ele desfazia os cigarros e enchia o cachimbo, arrisquei:

“Você não é um Saci, é?”

“Craro qui sô, nê?”, respondeu. “Puruquê, num credita?”

“Acredito, acredito... se aqui em São Paulo ainda temos até eleitor do Maluf, por que não teríamos um Saci?”, argumentei. “Mas me diz uma coisa: como é que você tem essa carinha de japonês?”

O Saci deu um suspiro e explicou: “Meu pai é regítimo Saci de Son Ruis de Paraitinga qui veio conhecê Son Pauro, nê...Daí veio no Gricério, passô cantada numa Pokémon e enton veio eu, nê...”

Me sentei do lado dele, acendi um cigarro e continuei o papo. “Mas e aí, você gosta de morar na Liberdade? Não se sente um pouco deslocado?”

“Ê, ê muito purobrema, nê”, disse, desolado. “A corônia num gosta de mim, me chama de kurombô , negrinho, nê, e ê só cendê cachimbo qui galotada tudo foge, nê, recramando di fumanti”.

“Então por que você não se muda de São Paulo e vai pro interior, onde os Sacis são mais aceitos?”, perguntei.

“Cê qui pensa...Um monton di tempo eu viajei, fui Barretos, fui Sorocaba, Son Jusé dus Campu, té Diadema, nê, era tudo mesmo coisa, nê... Tudo mundo fazendu um tar de raluim, nas escora as sensei tuda vestindo galotada cumas rôpa isquisita, uns chapéu puntudo, tudo preto, corocando murcego i arania di prástico nus parede. Tê us bôbora, qui eu gosto, elas istragava fazendo uns careta... I juntava múmia, fraquistaim, vampiro, bicho que meu famíria nunca viu pur aqui...”

“Pô, mas que barra, só de escutar já fiquei deprimido...”, me solidarizei. Foi então que ouvi o Saci dar uma risadinha e comentar: “Mas isso tuda ê antigamente, nê. Gôra tem muito gente qui rembra da sacizada, qui tá cuntando prus quiriança us caso dus saci, farando das mura sem cabeça, du boitatá. Puróximo sábado tem festa, se você quisê vir...”

“Eu vou sim, mas como é que eu faço pra te encontrar?”, perguntei.

“Fáciro, nê. Ê só passá qui nu raguinho, assubiá ou chamá meu nome, nê”

“Tá legal, combinado. Mas como é teu nome?”

“Saci Mi.”

 

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