Aconteceu
Robson Moreira
Cheguei ao meu trabalho anteontem
e me deparei com um Saci sentado sobre a minha mesa. Achei que não
tinha acordado direito, esfreguei os olhos, olhei de novo e não deu
outra. O Saci permanecia lá. Eu não estava dormindo, claro.
Até porque, se estivesse, teria batido com o carro no percurso. Era
mesmo, portanto, um Saci. Mas não um Saci qualquer. Este era todo de
miçanga, cachimbo verde (para quem é corintiano, como eu, um
drama) e uma perna só, como todos. Só que diferente: a perna
não era no meio e nem no lugar certinho de uma perna. Ela estava bem
na pontinha do lado esquerdo, assim quase já saindo do corpo do Saci.
Mas era um Saci simpático que fazia gosto. Ele fez um "ôi"
e ficou ali, me olhando com aquela cara de quem acabara de fazer uma traquinagem.
Respondi ao "ôi" e já fui perguntando:
- De miçanga?
Ele abriu um largo sorriso e retrucou:
- Até que enfim alguém que repara no detalhe.
E prosseguiu:
- Tive o maior trabalho para me fazer, mas ninguém nunca me olhou por
esse lado. Você é o primeiro.
Eu lamentei, pois o que realmente saltava aos olhos era o fato de ser um Saci
todo miçangüento.
- E que trabalhão danado foi esse?, eu quis saber.
- Ah, meu caro. Você faz idéia de quantas miçangas eu
trago aqui? Pois bem. Cada uma eu catei de um lugar diferente. Sabe aquele
pessoal que fica nas pracinhas fazendo coisas? Pois levei anos reunindo miçanga
por miçanga, cada uma tirada de uma barraquinha diferente. E foi mais
demorado porque nenhum deles podia perceber.
Fiquei pensando: não deve ter sido assim tão complicado. Afinal,
esse pessoal sempre fica todo amontoado no mesmo lugar.
Pensei e o comentário saiu sem querer. Pra quê. Miçanga
(foi como eu comecei a chamá-lo e, como ele não reclamou, adotei
o nome: Saci Miçanga, e pronto. E não me venham dizer que é
plágio ao imbatível Saci japa, do Dilair, por favor), Miçanga,
como eu ia dizendo, deu um pulo em cima da mesa e berrou:
- Qualé, ô meu! Fiz isso em um monte de cidade diferente. Pior:
demorava um tempão pra surrupiar uma miçanguinha mixuruca. É
que lá pelas minhas bandas é uma pobreza só. Uma miséria
de fazer dó. E o pessoal consegue tudo com muita dificuldade. Então,
eu ficava pensando se aquela miçanga não podia fazer muita falta.
Mas depois, né, sabe cumé. A região é miserável,
mas o pessoal de lá é muito rico nas idéias e eu achei
por bem imaginar que eles logo arrumariam outra coisa pra botar no lugar,
no caso de sentir mesmo falta da miçanga que eu tava surrupiando.
Percebi uma sinceridade danada nos olhos de Miçanga e resolvi matar
logo minha principal curiosidade:
- Mas me diga uma coisa, meu caro. Posso saber o que você veio fazer
aqui, exatamente em cima de minha mesa de trabalho?
E ele, na maior naturalidade:
- Vim te dar os parabéns, uai!
- Mas que parabéns, sô. Se for pelo meu aniversário já
faz um tempão. Foi dia 15, esclareci.
A resposta de Miçanga estava na ponta da língua:
- E ocê pensa que é mole sair lá de Joaíma, lá
do cu do Vale do Jequitinhonha e chegar aqui pulando numa perna só?
Fiquei pasmo. Ali na minha frente, bem na minha frente, um Saci do Vale do
Jequitinhonha, lá do norte das Minas Gerais.. Um legítimo Saci
do Vale do Jequitinhonha. Dá para acreditar? E ele tinha razão.
Eu bem que podia ter facilitado as coisas, nascendo num lugar que fosse mais
perto. Mas, não. O sargento Moreira achou de levar a dona Izabel para
me parir justo em Joaíma. Que puta azar teve o Miçanga, coitado.
Mas notei que ele não estava nem um pouco incomodado com isso. O que
ele queria mesmo era saber se eu tinha gostado do presente.
- Presente, mas que presente?, estranhei.
E ele:
- Eu, cara.
- Você? Num brinca, esse menino! Quer dizer então que cê
não vai voltar, vai ficar aqui comigo?, reagi, já com o Miçanga
sentado na palma da mão.
- Ele percebeu meus olhos brilhando, mas fez questão de não
deixar barato:
- Que diabos você queria? Que eu fizesse o caminho de volta depois de
toda a trabalheira que tive para chegar até aqui. Me inclua fora dessa,
meu. Sou Saci, mas não sou maluco.
Saci Miçanga anda solto por aí, mas é meu. Só
eu tenho um Saci de miçanga, e mais ninguém.
P.S.: Miçanga acaba de me confessar que por pouco ele não chega inteiro a mim. Diz ele que chegou à STV dois dias antes inteiramente aos pedaços, com as miçangas cada uma para um lado. Quem as viu primeiro foi a Claudinha Giron, do Administrativo, que as recolheu, levou para casa e as entregou à sua mãe Sandra. Foi pelas mãos da mãe da Claudinha que, em fins de novembro de 2003, Miçanga ganhou forma de Saci.
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