O mito segundo o Saci


Em seu O Sacy-Perêrê – Resultado de um inquerito , Monteiro Lobato faz um retrato falado do Saci, conforme lhe foi passado por entendidos no assunto:

 

Só no convívio do sertanejo, valente de dia e medroso de noite, ao som da viola num rancho de tropeiros, vendo bruxolear a fogueirinha e, fóra, na imprimadura da escuridão, lucilar o vagalume vagabundo é que um artista poderá “ouvir e entender” sacys.

O medinho contagioso abrir-lhe-á todas as valvulas da comprehensão. E saberá pela boca ingenuamente credula do Geca Tatu que tempéra a viola que o Sacy é um molecote damninho, cabrinha malvado, amigo de montar em pêllo nos “animaes” soltos no pasto e sugar-lhes o sangue emquanto os pobres bichos se exhaurem em correria desapoderada, às tontas, loucos de pavor. E que em dias de vento elle passa pinoteando nos remoinhos de poeira. E que nessa ocasião basta lançar no turbilhão um rosario de caiapiá para tel-o captivo e a seu serviço como um criadinho invisível. E saberá mil particularidades mais, ouvirá “causos” de mil diabruras pelos campos, ou dentro de casa se uma cruz na porta principal não a proteje do capeta. E ficará encantado com a psychologia do pernetinha, cuja mania é atazanar a vida do sertanejo com molecagens de todo o genero sem entretanto cahir em excessos de perversidade. Não tem maus bofes, o Sacy. O que quer é divertir-se a custa do caboclo e quebrar a vida monótona do sertão.

Mas há controvérsias.

Na Geografia dos Mitos Brasileiros , Câmara Cascudo cita uma passagem de Poranduba Amazonense em que Barbosa Rodrigues vê a identidade do insigne perneta se sobrepor à de uma ave, o popularíssimo “Pássaro-Saci”:

 

... no Sul é Saci tapereré, no Centro Caipora e no Norte Maty-taperê.

O civilizado, que muitas vezes não entende a pronúncia do sertanejo, que é o mais perseguido por ele nas suas viagens, tem-lhe alterado o nome; já o fez Saci-pererê, Saperê, Sererê, Siriri, Matim-taperê e até já lhe deu um nome português, o de Matinta-Pereira, que mais tarde, talvez, terá o sobrenome “da Silva” ou “da Mata”. Para conseguir seus fins, e fazer suas proezas sem ser visto, sempre vive o Saci ou Mati metamorfoseado em pássaro, que se denuncia pelo canto, cujas notas melancólicas, ora graves ora agudas, iludem o caminhante que não pode assim descobrir-lhe o pouso porque, quando procura vê-lo pelas notas graves, que parecem indicar-lhe estar o Saci perto, ouve as agudas, que o fazem já longe. E assim, iludido pelo canto se perde, leva descaminho nunca vendo o animal.

Um adendo. Gabriel Esquerra, um saciólogo argentino, diz existir uma dúvida polêmica, entre a população de Misiones, na região fronteiriça com o Brasil e o Paraguai, quanto à questão levantada por Barbosa Rodrigues: ninguém sabe ao certo se o Saci e o pássaro-Saci se convertem um no outro ou se trabalham em sociedade...

Já Alceu Maynard Araújo, no primeiro volume de Folclore Nacional , cita o major Benedito de Sousa Pinto, de São Luiz do Paraitinga, evidentemente:

 

Conhecemos três espécies de Saci: trique, saçurá e pererê. O Saci mais encontrado por aqui é o Saci-pererê. É um negrinho de uma perna só, capuz vermelho na cabeça e que, segundo alguns, usa cachimbo, mas eu nunca vi. É comum ouvir-se no mato um “trique”isso é sinal que por ali deve estar um Saci-trique. Ele não é maldoso; gosta só de fazer certas brincadeiras como, por exemplo, amarrar o rabo de animais.
O saçurá é um negrinho de olhos vermelhos; o trique é moreninho e com uma perna só; o pererê é um pretinho que, quando quer se esconder, vira um corrupio de vento e desaparece no espaço. Para se apanhar o pererê, atira-se um rosário sobre o corrupio de vento.
Quando se perde qualquer objeto, pega-se uma palha e dá-se três nós, pois se está amarrando o “pinto” do Saci. Enquanto ele não achar o objeto, não desatar os nós. Ele logo faz a gente encontrar o que se perdeu porque fica com vontade de mijar. Quando se vê um rabo de cavalo amarrado, foi o Saci quem deu o nó. Tirando-se o gorrinho do Saci-pererê, ele trará para quem o devolva tudo o que quiser.
Quando passar o redemoinho de vento, jogando-se nele um garfo sai o sangue do Saci. Há outras versões: dizem que jogando-se um rosário, o Saci fica laçado; e que jogando-se uma peneira, fica nela.

 



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