Um ancestral do Saci*


Daniel Brazil



Pesquisando sobre a origem e abrangência geográfica do saci, me aventurei por livros e enciclopédias de folclore. Embora todos os continentes tenham duendes protetores das florestas, nenhum tem as características de nosso simpático unípede. Nem mesmo na África negra descobri parentes do saci, o que delimita seu habitat natural à América do Sul.


Os guaranis contam histórias de um pequeno índio meio mágico, com o poder de ficar invisível, que vive nos bosques e protege os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu nome é Cambai ou Cambay, e curiosamente ele tem uma perna torta, e anda manquitolando. Vem daí a expressão cambaio, que significa manco, em português. Cambai pode ser considerado um ancestral do saci moderno, que adquire a cor preta por influência da cultura afro trazida para o Brasil.


Nas lendas amazônicas ou litorâneas (aruaques, tupinambás) não há registros de saci, o que nos leva à conclusão de que ele é originário do Centro-Sul do país - área guarani - tendo como centro de irradiação o Vale do Paraíba, onde registramos a maior parte das ocorrências.

Quando já considerava encerrada a pesquisa deparei com um fato assombroso, que passo agora a relatar. Viajantes do século XVII, explorando o extremo sul do continente, chegaram às terras geladas da Terra do Fogo, onde encontraram uns poucos índios, altos e fortes, habituados à aridez do solo e à inclemência do tempo. Uma rara ilustração da época, encontrada num livro espanhol, revela um pequeno homem, nu, barbado, deitado no chão com sua única perna erguida e um enorme pé sobre a cabeça.

Um saci estranhíssimo!Diz o texto, um relato dos primeiros desbravadores, que ele assim agia para se proteger do sol naquela região desértica. Foi chamado de “patagon” (grande pata, pezão), e daí deriva o nome da região: Patagônia. Como hoje não há mais relatos sobre sua presença, podemos supor que está extinto, infelizmente. Mas sua semelhança com o nosso saci revela que foi um parente próximo, um antepassado igualmente sul-americano.

Esta é a única ilustração conhecida do Patagon, o saci “hermano”, e pela primeira vez está sendo divulgada no Brasil, para alegria de todos os observadores de sacis.

* Cambay (versão guarani do saci): Jekupé, Olívio. O Saci Verdadeiro, editado pela Associação Guarani Nhe'em Porã, 2003.Patagon: Cattermole, Pierluigi. Un Ser de Una Sola Pata, artigo publicado na revista de cultura e design Experimenta n. 41,  2002, Madrid. Não consta a fonte primária da gravura.





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