Saci e outros bichos
Perdi
minha máquina fotográfica Olimpus e se alguém a encontrou
nem precisa devolver porque já comprei outra. Ela era uma antiga companheira
de pescaria que raramente saía de minha sacola.Já a usei para
fotografar muitas cenas incomuns na natureza; como o acasalamento de lontras,
quando pescava à sombra de um angazeiro no rio Paraibuna, uma enorme
curimbatá ferida por fisga agonizando numa raseira do rio São
Francisco, um saci colhendo carapiá, a erva que usa no cachimbo para
dar aquele aroma conhecido e que denuncia sua presença por perto. Outras
fotos mais raras foram as de um bando de caboclos d’água no rio
Abaeté numa noite em que eu estava numa canoa, amoitado no meio do
rio pescando surubi, e notei um estranho movimento no areal da margem à
minha direita. Eram eles. Baixinhos, peludos e calvos. Atacavam uma capivara
com suas mãos dotadas de quatro dedos, porém armadas de unhas
terríveis como lâminas de canivete. Num instante a arrastaram
para o fundo do rio. Percebendo a situação, tirei a câmera
da mochila e disparei muitas vezes até findar o filme, tendo antes
por precaução desligado o flash, pois como se sabe eles são
muitos sensíveis à luz (tanto que jamais foram vistos durante
o dia) e podem atacar e matar quem os perturba. E aquele bando de caboclos
d’água era dos cinzentos, muito mais ferozes que os marrons encontrados
em nossa região.
Pena que devido à falta de luz as fotos mostram apenas a escuridão
favorável ao aparecimento deles. Só de lembrar fico arrepiado.Quem
já viu sabe o medo que dá. Nunca fui atacado por caboclos d’água
porque se o tivesse sido seria mentira. Mas conheço um pescador, velho
barranqueiro do rio Paraíba ,o Roque Doido, que conta que quase foi.
Às vezes perco cenas preciosas por não estar com a câmera
à mão, como num dia em que preparava a tralha para começar
a pescaria, perto da corredeira do funil no rio Paraitinga, e tive a atenção
despertada por um barulhento joão-de-barro que cantava sacudindo as
asas junto sua singular casinha construída no galho de uma garapeira.
Era uma fêmea que fazia aquela algazarra, batendo as asas e levantando
as penas do rabo enquanto era galada por um beija-flor azul que voava ao seu
redor repetindo várias vezes aquele inédito acasalamento. Foi
tão rápido e tão incomum que nem me lembrei de fotografar,
porém nunca esqueci este caso do beija-flor tarado. Voltei muitas vezes
a pescar nesse mesmo lugar, e quase um ano depois vi na mesma árvore
um joão-de-barro de cor azulada, voando e batendo as asas,dando uma
paradinha no ar, como fazem os beija-flores, antes de entrar na casinha que
continua no mesmo lugar do galho da árvore para quem quiser ver. Desta
vez fotografei. Ele voou rápido, porém a árvore e a casinha
saíram na foto para comprovar o que digo.
Hoje fico matutando, querendo satisfazer uma curiosidade natural; Seria aquele
pássaro uma espécie híbrida do cruzamento do beija-flor
com joão-de-barro? E se fosse, que nome teria? João-da-flor
ou beija-barro?
Renato Ribeiro - Barbacena - MG
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