O Pescador e a menina
O
pescador e a mentira parecem caminhar juntos. Foram feitos um para o outro.
Não é a mentira para encobrir desonestidade ou a falta de princípios
morais. Mas a mentira mentirosa que socorre o pescador na hora de confirmar
alguma verdade por ele inventada; ou alguma verdade por si só exagerada
que fica com cheirinho de invenção.
Na primeira vez em que fui pescar em Três Marias – em l965 –
lá era apenas um arraial chamado Barreiro. O rio São Francisco
era uma riqueza em peixes que dá tristeza recordar. Era uma viagem
muito difícil, dada a distância e as condições
da época. Na volta, estava sempre cercado por amigos pescadores curiosos
em saber os detalhes da pescaria. Usei e abusei da oportunidade de contar
tudo que vi e me lembrei: do rio lindo de assombrar; dos cardumes infinitos
de peixes que se via; do barulho assustador durante a noite provocado na água
por peixes grandes, capivaras, caboclos d’água, jacarés
e outros habitantes de hábitos noturnos do rio; suas barrancas e matas
ciliares; um saci que toda noite se aproximava do acampamento para apanhar
fumo de cachimbo ou quaisquer outros presentes ofertado pelos pescadores para
evitar que ele fizesse suas diabruras, como cortar corda da barraca, amarrar
rabos de animais uns nos outros. Essas ofertas eram deixadas junto a uma porteira
onde ele ia buscar e alegremente soltava seus estridentes assobios que entendíamos
como um agradecimento (nunca se deve oferecer patinete a um saci). Depois
saía a cachimbar, deixando um cheiro de carapiá. Carapiá
é uma erva que dá certo aroma quando misturada com fumo no cachimbo.
Na escuridão da noite eu o via entre as árvores a uns cem metros
do das barracas, mais preto que jabuticaba que caiu num barril de piche, o
que me deixava arrepiado e com certo medo. Na manhã seguinte, via as
pegadas de um único pé no barro areento da margem próxima.
Era de um pé destro, pouco comum, pois a maioria dos sacis é
canhota. Tive o cuidado de tirar uma pegada mais nítida, depois de
seca no local, e trazê-la dentro de uma caixa, como recordação
e para mostrar aos meus filhos. Ainda está guardada na mesma caixa
comigo. Pena que após tantas mudanças de lugar tenha se desmanchado,
mas a areia ainda está na caixa para provar a quem tiver dúvidas.
Criaturas estranhas, os sacis. Contando essas curiosidades da pescaria, contei
também de um surubi de uns oito quilos que pesquei com minhocaçu
e ninguém da terra tinha ouvido falar desse bicho. Então expliquei
que era um tipo de minhoca de até um metro de comprimento, comum na
região do Paraopeba. Foi aí que a realidade transformou-se em
mentira porque ninguém acreditou que houvesse minhoca tão grande.
Renato Ribeiro –
Barbacena - MG
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