Feliz Dia do Saci Procêis!!!
Autora: Crys Fischer Fontana
Participe da SOSACI (Sociedade dos Obsevadores
do Saci) e prestigie o imaginário brasileiro.Abaixo o HALLOWEEN viva
o SACI !!! (leia com carinho sobre a nossa SOSACI).
E, a exemplo de Oswald de Andrade, promover um grande ritual antropofágico
de deglutição das abóboras, que traduzem o que há
de pior na geopolítica do novo milênio.
Para quem ainda não sabe, 31 de outubro é o Dia do Saci, oficialmente
instituído em São Paulo nos âmbitos municipal e estadual.
Os projetos de lei de Aldo Rebelo e Ângela Guadagnin para estender a
data a todo o território nacional tramitam em conjunto na Câmara
dos Deputados e despertam muita polêmica. Alguns alegam que diante das
chamadas pautas de relevância pendentes na agenda do Congresso eles
soam supérfluos, exóticos ou até mesmo risíveis.
A esses, lembramos que o processo legislativo democrático pressupõe
iniciativas sobre os mais diversos temas que, só depois de avaliadas
em sua pertinência e constitucionalidade, viram leis. Quanto ao Dia
do Saci, já aprovado pela Comissão de Educação,
é fundamental entender o que está por trás dele.
A idéia da sua criação partiu do grupo que em 2003 fundou
a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) para resgatar nossos mitos e
difundir o folclore. E a escolha do 31 de outubro não ocorreu por acaso.
Numa estratégia para confrontar o Dia das Bruxas, que tem ocupado com
força crescente espaços do imaginário, pretende sensibilizar
pais e educadores sobre a necessidade de (re)descobrirmos as tradições
populares, oferecendo às crianças e jovens alternativas lúdicas
e divertidas.
Símbolo de resistência aos estrangeirismos, o saci congrega elementos
multirraciais que configuram o povo brasileiro. Nascido tupi-guarani há
200 anos na zona fronteiriça com o Paraguai, incorporou feições
africanas e um pito de preto velho no contato com os escravos. E, se perdeu
uma perna para representar o ser humano mutilado pela violência do cativeiro,
ganhou o piléu vermelho, emblema da liberdade na Roma antiga -que se
converteria no barrete frígio adotado pelos republicanos após
a Revolução Francesa de 1789.
Já o Halloween tem origem nos rituais do norte da Europa que celebravam
o final das colheitas, antecedendo um longo período de inverno, quando
os celtas invocavam seus ancestrais e homenageavam os mortos. Com o tempo,
a Igreja Católica absorveu o festival pagão, convertendo-o em
Dia de Todos os Santos (All Hallows" Eve), seguido por Finados. Restrito
à cultura anglo-saxônica, o Halloween ganhou popularidade no
século 19 com a imigração irlandesa para os EUA e começou
a ser comemorado no Brasil há cerca de 20 anos, principalmente nas
escolas de inglês. Logo tomou os colégios particulares, a rede
de ensino pública e as lojas, que passaram a suprir um mercado ávido
por produtos e modismos importados.
Esse hábito de "macaquear" o que vem de fora foi detectado
por Monteiro Lobato já nas primeiras décadas do século
20, quando Paris se impunha como modelo. Em artigos inflamados, o escritor
não se cansava de denunciar o desenraizamento cultural do país,
chamando a atenção para a estatuária de ninfas, faunos
e anõezinhos nibelúngicos nos parques públicos como o
Jardim da Luz, no centro da capital paulista, em lugar de boitatás,
iaras ou sacis.
Ciente da importância do saci como portador de múltiplas significações,
Monteiro Lobato realizou em 1917 uma pesquisa para estabelecer os contornos
antropológicos do "insigne perneta". As conclusões
foram lançadas em livro na fase mais cruenta da Guerra Mundial que
assolava a Europa, paradigma de civilização aos olhos da elite
intelectual da época. Contrapondo à barbárie do conflito
um personagem negro, travesso e de uma perna só, "O Saci Pererê:
Resultado de um Inquérito" vinha, segundo Monteiro Lobato, despertar
consciências adormecidas. Assim como o Jeca Tatu, síntese de
um heroísmo silencioso que morre, mas não adere, o saci seria
revelador da alma de nossa terra e da nossa gente.
Nunca é demais salientar que referências mitológicas ajudam
a firmar a identidade de uma nação. Contribuem para costurar
a memória coletiva, reforçar os liames do tecido social, mostrando
que fazemos parte de um todo, que temos uma história em comum.
Na medida em que imitamos efemérides de outras culturas de maneira
simplória, nos tornamos vulneráveis. Não se trata aqui
de endossar posturas xenófobas, mas sim de reivindicar uma troca de
mão dupla, que inclui a possibilidade de povoar com sacis o Central
Park de Nova Iorque e o Hyde Park de Londres. E, a exemplo de Oswald de Andrade,
promover um grande ritual antropofágico de deglutição
das abóboras, que traduzem o que há de pior na geopolítica
do novo milênio.
No mundo globalizado, ridículo não é acreditar no saci
e em tudo o que ele expressa. Lamentável mesmo é se fantasiar
de bruxa, em uma atitude de submissão ao colonialismo enlatado, sedimentando
o que Silvio Romero dizia se tratar de nosso maior mal: pretender ser o que
não somos, trazendo, em contrapartida, o desconhecimento de nós
mesmos.
Marcia Camargos, 50, doutora em história social e escritora (camargos@plugnet.com.br)
e Vladimir Sacchetta, 54, jornalista e produtor cultural (sacchett@plugnet.com.br),
são biógrafos de Monteiro Lobato e fundadores da Sosaci (Sociedade
dos Observadores de Saci).
www.sosaci.org.br
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