O mito no imaginário

 


A opinião do especialista

Formatação

Para o estabelecimento de uma relação dialética entre memória e história escrita, a história oral constitui um mecanismo admirável. Por expressar uma riqueza de conhecimento em todos os aspectos do vivido, ela pode reatualizar ou acrescentar dinâmicas sociais, personagens típicos e eventos marcantes, que não são substancialmente revelados pelos escritos oficiais. Dessa forma,impliamos a capacidade do pesquisador e os limites da própria pesquisa.

Quando falarmos de temáticas tradicionais e populares, vale destacar: o mais importante aqui, não é a veracidade da fala do depoente. O importante é o significado atribuído a experiência vivida por seus participantes e a percepção do imaginário camponês que ainda povoa o cotidiano local. Tais elementos indicarão a onipotência da natureza e os limites impostos à ação humana, bem como, as inovações técnico-científicas que libertam, glorificam e inquietam a todos.

Refiro-me a alguns estágios culturais que compõem a longa trajetória humana, isto é, a mitologia, a razão esclarecida e as novas formas de percepção da natureza e do universo. O que viabiliza, no imaginário popular, a aproximação e o entrosamento entre homens e mito. Assim sendo, reatualizar as figuras lendárias e a própria relação homem/natureza sugere aos caçadores tradicionais, em especial, uma razoável melhoria em sua condição de vida.


Esta suposta ascensão do camponês iletrado revela pelo menos duas coisas: pela coragem e ousadia, o homem faz-se tão forte quanto o mito que o assusta; pela razão e experimentação, sobrepõe-se ao mito e, pouco a pouco, constitui uma ameaça real, ao meio em que vivemos.

Quanto ao significado das experiências e o imaginário de camponeses
caririenses, alguns informes chamam-nos a atenção. Intuí-se de início, que a onipotência da natureza, expressa através de mitos, lendas e tradições
regionais, fazia com que os homens, sem recursos técnicos ou financeiros, respeitassem as forças da natureza e o ambiente em que viviam. Com essa concepção de mundo, o bom agricultor, caçador ou pescador, era aquele capaz de ler o céu nublado, conviver com os caboclos e manejar os instrumentos de captura.

Com a multiplicação das inovações técnicas e socioculturais, impulsionadas a partir das últimas décadas, tal concepção imergiu em crise. Hoje, há instrumentos suficientes para manipular as condições ambientais e isso estimula transformações ainda maiores. O que explica os desequilíbrios socioambientais e, ainda, o valor pedagógico, histórico e antropológico das caiporas, como ícone popular e regional a ser mantido em benefício da boa formação humana.

ELDINHO PEREIRA DA SILVA
Professor-pesquisador graduado em História pela Urca, com especialização em História do Brasil
regional@diariodonordeste.com.br





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