Comentários à Lenda do Saci Jordanense e, mais, o Saci Albino

 


 

Achando um tanto esquisita essa lenda que se acha assinada pelo Sr. Sudarinho, permito-me tecer sobre ela alguns breves e singelos comentários, os quais seguem, esclarecendo de antemão que não pretendo questionar, de forma alguma, o ilustre narrador, pois que tenho por base acreditar piamente em todos quanto se dedicam a contar histórias de Saci, mesmo porque não gosto que ponham dúvidas frente às que costumo contar, o que faço apenas por ouvir dizer.

Dentre mais de quinhentos causos, ditos de si e ouvidos de outros, que amealhei em várias décadas de verdadeira perseguição ao astuto perneta, como essa do Sr. Sudarinho, que narra a existência de Sacis completamente agasalhados na friorenta cidade de Campos do Jordão, tinha eu escutado apenas mais duas, com, no mais das vezes, o Saci se apresentando pelado ou só com um calçãozinho, ordinariamente vermelho como o invariável gorro.

Fosse apenas isso, de ver Sacis agasalhados, e ainda não seria tanto. Mas, eis que fala, também, de Sacis contraindo pneumonia, e ainda mais morrendo! Aí já é um pouco demais, pois que nunca ouvi semelhante coisa, essa de Saci adoecer e morrer, nem mesmo de doença mais grave ou de acidente.

Como se sabe e se comprova, o Saci sempre foi e continua sendo imortal, vivo que sempre estará em nosso imaginário, insuscetível à qualquer mal ou doença. Fosse o contrário, e não haveria mais qualquer Saci para servir de história ainda hoje. Já teriam todos eles morrido, ou de peste ou de política, ou, ainda, pela avassaladora sanha do Maligno Triplo.

Prova de que os Sacis não sentem frio, mesmo dos grandes como faz em Campos do Jordão no inverno, é que, naquelas mesmas montanhas foi avistado, pela primeira vez, o Saci Albino. E foi numa noite de inverno, com o russo tomando conta de tudo. Viram dele somente os olhinhos brilhantes e o pito fumegante. Nada de roupas, uma brancura só. Pensaram que era por causa da forte serração.

Passados alguns meses, com o tempo já mais quente e em noite clara, o danado foi de novo avistado, agora um punhado deles, dessa vez se confirmando que eram branquinhos de natureza, que eram um novo tipo de Saci Albino, da subespécie Homo sapiens unipede albinus. Mas que não trajavam nada mais do que calção e gorro vermelhos.

São Paulo, 15 de maio de 2009
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br

 





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