Pequeno ensaio sobre o gorro do Saci

 


 


Com o intuito exclusivo de obter algumas respostas sobre o verdadeiro aspecto do gorro com o qual se costuma encabeçar o famoso personagem do nosso folclore, procedeu-se ao revolvimento de velhos e novos registros dentre centenas de anotações, desde causos de aparições até relatos tomados diretamente de pessoas, algumas que até já morreram.

Afora os registros de própria obtenção, o presente estudo considerou o que se acha publicado nas mais diferentes formas de comunicação, dentre livros, jornais, revistas e até sites eletrônicos, destacando-se o famoso inquérito que foi publicado por Monteiro Lobato, em 1918.

Dentre os mais de quinhentos registros e anotações pesquisados, foram selecionados exatamente cento e noventa e dois documentos que permitem colher informações precisas sobre a aparência e conformação do adorno usado pelo Saci, conforme encontrado nas referidas fontes de dados. Os demais registros disponíveis foram considerados omissos ou continham descrições imprecisas sobre o assunto da carapuça do perneta.

Todas as anotações selecionadas, no referido número de cento e noventa e dois, atribuem poderes mágicos à cobertura, o que não é de surpreender, dado o caráter imaginário do personagem, sendo que todas elas dão conta da mais absoluta crença na existência do Saci, ou porque o perneta foi visto com seus próprios olhos, ou por olhos alheios, mas de suas mais absoluta confiança.

Dos registros amealhados pessoalmente, através de conversas e entrevistas espontâneas, os mais antigos remontam aos meados da década de 1960, provenientes que foram do Dr. Célio Conde Leite, então médico do Posto de Saúde de Taubaté e que veio a falecer, muito pesarosamente, nos anos setenta.

O referido médico sanitarista me transmitiu as primeiras imagens do Saci, narrando causos passados em Muzambinho, em Minas Gerais, sua terra natal. Os causos do Dr. Célio, invariavelmente, diziam respeito ao desaparecimento de doces e outros acepipes que eram esmeradamente preparados por sua mãe e que misteriosamente desapareciam da cozinha, antes mesmo de serem servidos como sobremesa.

Eram cocadas, brigadeiros e suspiros que sumiam misteriosamente e sem qualquer explicação, exceto que fosse por obra do Saci, negrinho que costumava, segundo ele, freqüentar as cozinhas de antigamente, aonde ia com o intuito de obter brasa para acender o pito, mas que se aproveitava para comer o que lá houvesse de bom e de gostoso.

Sua mãe dizia que um dia ainda iria tomar o gorro do Saci e nunca mais ele iria a sua casa para acabar com os seus doces. O Dr. Célio, criança ainda, torcia para que isso nunca acontecesse, o que de fato não ocorreu, e os doces continuaram a sumir misteriosamente até que, já crescido, ele foi se embora para cursar medicina bem longe de Muzambinho, a partir de quando a sua mãe nunca mais deu pelo sumiço das guloseimas, acreditando que o Saci também tinha ido embora, pois que passaram a sobrar até mesmo os pés de moleques, os doces que mais desapareciam.

Registre-se que o Dr. Célio sempre foi um admirador do escritor Monteiro Lobato e, por certo, deveria conhecer muito bem os seus escritos sobre o Saci Pererê.
O próprio Dr. Célio deixou uma bonita obra intitulada "Terra bandeirante", na qual descreve aspectos de diversas cidades do interior paulista, as quais visitou munido de sua máquina fotográfica e de onde trouxe, dentre as lembranças, curiosas histórias de Saci. Foi ele quem me contou a incrível saga do Saci contra o Diabo da Tasmânia, dada e passada no Horto Florestal de Rio Claro.

Em todas as dezessete histórias de Saci que me foram transmitidas pelo Dr. Célio, o Pererê, como o chamava, aparecia vestido com um gorro vermelho vivo, o qual utilizava para carregar os doces que tirava da cozinha da casa de sua mãe, em Muzambinho.

Esses fatos atribuídos ao Dr. Célio são aqui mostrados apenas para servir de ilustração dos causos que foram pesquisados, todos eles devidamente registrados e com procedência de irrestrita credibilidade, pois que não seria com base em fatos duvidosos que se poderia chegar às conclusões aqui demonstradas.

Pois bem, dos cento e noventa e dois registros verificados e que dão conta do Saci vestindo uma carapuça, a grande maioria, mais precisamente cento e oitenta e nove, indica que o Saci traja, invariavelmente, um gorro vermelho, sendo que a totalidade dessas descrições atribui poderes mágicos a essa peça ornamental da cabeça do indivíduo em apreço.

Somente em três ocasiões o Saci foi descrito trajando um gorro de cor diferente da vermelha, sendo todas elas do Cavalli, famoso artesão de Campos do Jordão, autor de uma bela escultura do Saci, talhada em cedro, que ornamenta a Trilha do Monteiro Lobato, no horto florestal daquela cidade serrana. O referido artista jura ter visto, em ocasiões distintas, os Sacis que trajavam, não só gorros, mas também calções cor de rosa.

Este relato não pretende, de forma alguma, encerrar a questão sobre o gorro do Saci, mas tão somente servir de estímulo para que outros estudos sejam realizados e trazidos ao público interessado, ampliando ainda mais o conhecimento sobre a aparência e o comportamento desse que é o mais notório dos mitos brasileiros.

São Paulo, 02 de julho de 2009

João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br

 





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