O Pito e o pinto do Saci
Após termos discorrido analítica e metodologicamente sobre
o gorro do Saci, passamos a tratar de outro aspecto muito peculiar ao personagem,
qual seja o seu pito e, mais superficialmente, muito mais mesmo, digamos
que apenas visualmente, acerca do seu pinto. Essa questão sexológica
do Saci será mais amplamente abordada em outra ocasião.
O estudo não objetivou apurar as particularidades que versam sobre
a forma e a apresentação desse acessório que é quase
um apêndice do Saci, igualmente ao seu gorro. Assim, não nos
detivemos sobre detalhes, tais como o tamanho e a cor do pito, mas tão
somente visou-se apurar a presença desse objeto nas descrições
feitas do personagem, ou seja, as diferentes e variadas menções
do cachimbo aliada à sua imagem, conforme se pôde extrair das
fontes pesquisadas.
Além das narrativas que foram divulgadas por Lobato em seu célebre
inquérito, temos colecionado mais de quinhentos registros que tratam
de descrições e aparições do Saci. Nesses relatos
todos procuramos notar a indicações do uso do pito aliada á figura
do perneta. Assim é que apuramos que um total de 217 registros contém
elementos descritivos da presença do pito ou cachimbo em companhia
do perneta. As demais anotações foram desprezadas por não
fornecerem dados concretos sobre o uso do pito pelo Saci, inclusive algumas
descrições que apenas indicam vestígios característicos
de sua presença, tal como o forte cheiro de tabaco antes, durante
e após as aparições do moleque perneta, assim como algumas
histórias que descreviam o Saci fumando cigarro, indiferentemente
se eram de palha ou papel.
Restaram, como foi dito, 217 relatos, entre causos e histórias vividas
e contadas por outros, muitos dos quais já partiram para o imaginário,
de onde podem ter mais certeza da existência do Saci. Por essas narrativas é possível
afirmar que o Saci efetivamente usa habitualmente o pito, seja para efetivamente
fumar, seja por força do hábito ou mesmo por simples charme
ou para causar impressão. Note-se que o uso do cachimbo encontra-se
aliada às inúmeras diabruras e peças pregadas pelo Saci,
como se depreende de muitos causos analisados.
Desde os relatos mais antigos, que me foram trazidos pelo saudoso médico
Dr. Célio Conde Leite nos meados da década de 1960 (sem contar
os que se encontram no inquérito de Lobato, que remonta a 1917), até os
mais recentes, destacam-se as narrativas que me foram feitas pelo também
finado Pedro Evangelista, velho guarda florestal do Parque da Ilha Anchieta,
o qual nunca cumpria uma noite de vigilância sem estar munido de um
bom pedaço de fumo. Parte do fumo era para seu próprio cigarrinho
de palha, e outra parte, dizia ele, seria para oferecer aos Sacis que sempre
vinham incomodá-lo nas noites sombrias daquela ilha, que por mais
de meio século abrigou um terrível presídio de tão
tenebrosas lembranças.
Já segundo o saudoso Dr. Célio, o Saci costumava roubar doces
na cozinha da casa de sua mãe, em Muzambinho, Minas Gerais. Fazia
isso à noite, deixando no ar um forte cheiro de fumo. O Saci roubou
tanto doce que o Dr. Célio ficou diabético, mas não
conservou o feio hábito que tinha de fumar escondido de madrugada.
Definido como certo, correto, confirmado e indiscutível o fato do
Saci usar o pito, é interessante imaginar como ele se comportaria
com essas novas leis que estão a proibir o fumo em todos os lugares
públicos. Ainda bem que os Sacis não costumam aparecer nesses
locais, sendo da sua preferência as aparições particulares,
sem que haja muita gente para testemunhar. Daí porque os causos de
Saci, em sua grande maioria, são de muito difícil comprovação,
mas nem por isso podem deixar de ser objeto da máxima credibilidade.
Também, com o Saci gozando do poder da invisibilidade, não
está sujeito a qualquer tipo de proibição ditada pelos
homens.
Dito tudo isso sobre o pito, resta tocarmos, ou melhor, falarmos um pouquinho
do pinto do Saci. Partindo-se da verdade confirmada de que os Sacis podem
ser tanto machos como fêmeas, uma vez que a Saci fêmea foi originada
da perna esquerda do Saci macho, à semelhança do que ocorreu
com Adão e Eva, evidentemente que ele possui um pinto.
A maior e melhor evidência disso tudo pode ser encontrada numa escultura
feita em ferro que representa o Saci com pito e pinto. Essa magnífica
representação do perneta se encontra sobre o muro de uma borracharia
situada na esquina da Rua Newton Prado com a Avenida Castelo Branco, nas
proximidades da Marginal do Rio Tietê. Está lá para quem
quiser ver para crer.
Infelizmente, não consegui identificar o autor dessa importante e
valiosa obra documental. Sempre que passo por lá, nos finais de semana,
o imóvel encontra-se fechado.
São Paulo, 15 de março de 2010.
João Evangelista de Melo Neto
melonetoje@uol.com.br
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