O Golpe de Estado derruba o Saci do Poder em Monterio Lobato (SP)
JORNAL LOBATENSE EXTRA INFORMA
GOLPE DE ESTADO DERRUBA O SACI DO PODER"
ELEITO PELO POVO O SACI PRECISOU ASILAR-SE EM UMA "TOUCEIRA DE BAMBU" NO BAIRRO DO SÃO BENEDITO
Eleito como mascote turístico de Monteiro Lobato pela maioria absoluta de votos da população lobatense em 2005, o Saci foi deposto do poder por um golpe de estado. O Saci foi substituído por uma junta militar comandada pelo Pica-Pau, o qual ficou em segundo lugar no citado pleito com cerca de trezentos votos a menos. Refugiado no autêntico Sitio do Pica-Pau Amarelo em Monteiro Lobato, o Saci livrou-se de uma tentativa frustrada de captura com um rodopio, cuja ventania produzida lançou longe o documento de mandado de prisão, portado pelos perseguidores, e ilegalmente expedido contra ele.
O Sargento Pica-Pau tratou logo de comunicar falsamente o falecimento
do Saci, convocando os familiares para o velório e sepultamento. Para
justificar a ausência do corpo do pererê, foi colocado em seu
lugar uma
garrafa vazia que indicava supostamente a sua captura.
Ao saber do ocorrido, Dona Benta reuniu-se com todos no Sitio
para tratar do assunto, em regime de urgência. Da reunião foi
lavrada a seguinte Ata que agora reproduzimos: Dona Benta expôs o acontecido
e pediu a opinião daqueles que quisessem se manifestar. Aberta a palavra
Emília foi a primeira a falar e logo propôs uma passeata que
reunisse simpatizantes a favor da manutenção do Saci no poder.
Marquês de Rabicó então lembrou Emília de que ela
é sua esposa e discordou da idéia, isto porque, a manifestação
publica poderia gerar perseguições políticas que já
lhe davam medo. Por fim, Rabicó perguntou a Tia Nastácia quando
seria servido o lanche já que ele estava com muita fome. Tia Nastácia
queixou-se das travessuras do Saci em sua cozinha e
o acusou de ser o responsável pela queima do feijão que ela
cozinhava, disse a seguir esse mundo está perdido, após pediu
licença para ir a cozinha preparar uns quitutes. Tio Barnabé
também se queixou do Saci, o qual segundo ele havia gorado os ovos
de galinha que ele estava cuidando. Narizinho propôs que deveria ser
chamado algum super-herói para ajudar a socorrer o Saci. Pedrinho passou
então a encorajar os demais. Visconde de Sabugosa pediu a seguir a
palavra, momento em que todos silenciaram para ouvi-lo, com exceção
de Emilia. Visconde lembrou que a cidade de Atenas, na Grécia, é
o berço da democracia. Segundo ele depois de uma longa seqüência
de tiranos, Clístenes assumiu o poder em Atenas e resolveu acabar com
a guerra civil
provocada pela disputa pelo poder. Clístenes dividiu Atenas em 10 distritos
chamados de demos, nos quais a população poderia escolher, por
meio de eleições, 50 representantes para o governo. Esse foi
o início da democracia. Visconde a seguir então deu o seu veredicto
tendo em vista o valor inalienável da democracia, uma vez que o Saci
foi eleito pelo povo caberia tão somente ao eleitores descontentes
retirá-lo do poder por meio de nova eleição. Qualquer
ato de alteração no poder distinto da consulta popular fere
de morte o princípio da democracia e leva o estado ao despotismo. Aberta
a palavra ao Saci foi lhe perguntado o motivo do descontentamento do Pica-Pau.
Respondeu o Saci que o Pica-Pau estava insatisfeito com as idas e vindas dele
para São Luis do Paraitinga. Instigado por Pedrinho a dizer algo em
sua defesa, o Saci alegou que com o seu redemoinho ele poderia rapidamente
se movimentar para qualquer local e que isso não era problema. Finalizando
a reunião o Visconde de Sabugosa orientou o Saci, como paliativo para
a sua situação momentânea, o refúgio em uma touceira
de bambu localizada na Serrinha do São Benedito. Segundo o
Visconde tendo em vista a origem asiática de referida planta, era possível
imprimir àquela touceira a condição de embaixada de outra
nação, sendo que desse modo o local é inviolável
e inacessível ao Pica-Pau e seu exército. Assim, o Saci poderia
encontrar naquele local refúgio na condição de asilado
político, até que o seu caso se resolvesse.
O conto acima ilustra com humor a minha posição
acerca da destituição
sorrateira do Saci do seu cargo de mascote turístico. Não sou
a favor do
Saci , mas sim da democracia e do respeito que merece o resultado de uma consulta
popular. A atual Administração Pública merece respeito
na medida em que eleita pelo povo, foi escolhida por nós para tomar
as decisões políticas fundamentais para o desenvolvimento de
nosso município. Ocorre que semelhante princípio de respeito
à vontade popular não foi observado no caso do pobre Saci. Muitos
se lembrarão que no ano de 2005 foram ouvidas cerca de 650 pessoas
em eleição aberta na cidade. A escolha foi pelo Saci mas poderia
ser por qualquer outro, inclusive o Pica-Pau. Tendo em vista a quantidade
de moradores de nossa cidade a participação popular na eleição
representa cerca
de quase 20% do total de munícipes, ou percentagem maior se for considerado
somente os moradores do centro da cidade. Faltou então sensibilidade
da atual Administração que deixou de observar e respeitar a
opinião de crianças, jovens e adultos que votaram naquela eleição.
Nada contra a colocação de outro mascote, inclusive o Pica-Pau,
mas desde que seja ouvido a vontade do povo em um exercício de democracia.
Na época a eleição de um mascote para o nosso município,
pela sua natureza exótica, foi motivo de comentário regional
e abriu espaço para a nossa cidade em varias mídias, em especial
citamos a TV VANGUARDA, a qual cobriu por matéria a escolha popular
e forneceu ao vivo o resultado final da eleição. A escolha do
Saci também era também uma saída jurídica para
a questão dos direitos autorais, isto porque, embora divulgado pelo
escritor Monteiro Lobato pelo Inquérito sobre o Saci de 1917, e parte
integrante das estórias do Sitio do Pica-Pau Amarelo, o Saci não
é criação de Lobato, mas folclore popular de domínio
público. A escolha de qualquer outro personagem do Sitio do Pica-Pau
Amarelo
tal como a Emilia implicaria no pagamento de direitos autorais, o que não
acontece com o Saci. A mudança merece reflexão uma vez que todo
material de divulgação feito até agora pode se perder,
o que significa prejuízo aos cofres públicos. Ademais, não
se pode dar vazão à velha praxe política de que empossada
uma nova administração se muda tudo o que a administração
anterior fez sob o clichê de coisa mal feita, já que não
se é o pai da criança. Por fim a democracia deve prevalecer.
*JOÃO PAULO DA COSTA é Advogado e foi Secretário de Turismo
em 2005.
E-MAIL: jpdacosta@ig.com.br
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