Entrevista com a Sosaci
No manifesto do Saci, (ele) é reconhecido como uma força da resistência cultural a essa invasão (da indústria cultural predadora e orquestrada). Por que foi escolhido o saci como símbolo dessa resistência?
Vamos por partes. Em primeiro lugar, você deve ter percebido que o Manifesto é uma paródia que fizemos, dessacralizando Marx & Engels. As palavras, portanto, muitas vezes são deles, e não nossas. Em segundo lugar, o Saci (sempre com caixa alta) é uma força de resistência cultural, principalmente por ser, entre todos os mitos e lendas do nosso folclore, a essência de brasilidade. Por quê? Porque o mito do Saci nasceu entre os indígenas da região de Missões (daí, ele também existir na Argentina e no Paraguai); era, então, um curumim meio endiabrado, mas tinha duas pernas e um rabo; era de cor morena, como os indígenas. Em seguida, o mito do Saci migrou para o norte e encontrou a mitologia africana; virou um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira; herdou também dos costumes africanos o inseparável pito. E, finalmente, ele encontrou a mitologia européia, da qual herdou o pileo, o gorrinho vermelho; os romanos chamavam de pileo o gorro vermelho que davam aos escravos que libertavam; portanto, o Saci também é o símbolo do Homem Livre, o que tem tudo a ver com resistência cultural.
Será que os x-men, pokemon, etc, já não fazem, de alguma forma, parte de nossa cultura? A força desse novo (e estrangeiro) imaginário infantil pode destronar de vez nosso imaginário popular (principalmente se não houver a mobilização da sociedade, como a própria SOSACI)?
Acredito que façam parte, não da cultura, mas do imaginário infantil, o que reputo trágico, como acho trágica a própria televisão, enquanto entretenimento, pois a diversão é dirigida e passiva, ou seja, as crianças não agem, não brincam; limitam-se a receber, passivamente, mensagens que, acima de tudo, são comerciais e mercantis. O pai ou a mãe da criança tem que comprar aquele pokemon porque o resto das crianças da escola já o tem... Que a força persuasiva desses objetivos mercantis possa destronar de vez nosso imaginário popular é uma coisa que nos preocupa muito e um dos motivos que nos levaram a fazer alguma coisa em defesa da nossa cultura. Os x-men, pokemon etc. não tem muito a ver com o imaginário, do meu ponto de vista, porque são industrializados, já vêm prontos e são empurrados goela abaixo. Não há espaço para imaginar. Aliás, essa é uma característica da cultura de massas imposta pela TV. O sujeito torna-se consumidor, não criador. É passivo. O Saci, como outros mitos não industrializados/comercializados, não impõe modelos e dá espaço para imaginar. Basta ver o livro do Monteiro Lobato, em que cada pessoa vê o Saci de um jeito. E hoje em dia mesmo, há quem veja o Saci como um diabinho, outros o imaginam como um gozador inofensivo etc.
Até que ponto o saci significa uma resistência cultural popular? Na medida em que recebemos manifestações culturais bem mais do que exportamos, seria o caso de tecer uma barreira?
Não me parece que tenhamos, necessariamente, que receber mais manifestações culturais do que exportar: afinal, se o cinema argentino ou a música popular brasileira são, atualmente, considerados uns dos mais importantes produtos culturais do mundo inteiro, certamente é porque o sabemos fazer bem. (Também não me parece que seja uma coincidência que a Organização Mundial do Comércio queira catalogar a cultura como um bem comercial, como fez agora, recentemente, na reunião sobre a Sociedade da Informação, em Genebra, afastando-a do patrocínio da Unesco.) Nenhum de nós pensa em barreiras. Como, aliás, consta da Carta de Princípios da Sociedade dos Observadores de Saci, o que reivindicamos é a reciprocidade na relação com as nações hegemônicas do chamado Primeiro Mundo.
Assim, a SOSACI acredita que as trocas culturais de mão-dupla sejam benéficas e tem de acontecer? Mas estando ainda o Brasil numa condição de Terceiro Mundo, como levar nossa cultura para o exterior, numa tentativa de equilibrar essa suposta troca?
As trocas culturais são sempre benéficas e enriquecedoras. Tenho certeza de que, como um argentino ou um paraguaio se podem encantar ao descobrir o primo brasileiro do Yasi Yateré, também um russo se encantaria e espero que ainda aconteça ao descobrir um parente do Silvano a que se refere o Tolstoi. Um saciólogo daqui, de São Luiz do Paraitinga, me garante que leu ele acha que em 1993 ou 1994 na Folha Ilustrada uma notinha sobre um Saci do Sul da França... Creio que não devemos pensar as trocas culturais em termos de Primeiro e Terceiro Mundo (o Segundo escafedeu-se), pois não se trata de um diálogo entre quem tem muito e quem tem pouco. A cultura popular é a identidade de uma nação, pouco importando se ela é rica ou não.
Mitos importados são usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Essa, na verdade, é apenas a ponta de uma questão maior o complexo de inferioridade do brasileiro, de que tudo que vem de fora é melhor. Será que o Brasil só vai acreditar em seu potencial, deixar de ser o eterno país do futuro quando aceitar e crer como boa nossa terra, como cheia de potenciais (inclusive potencial humano) desperdiçados?
Claro que é a ponta de uma questão maior, mas penso que essa questão maior não é propriamente um complexo de inferioridade, e sim aquilo que antigamente se chamava de capital monopolista: um Estado hegemônico cujos tentáculos vão se apropriando de corações e mentes.
Como a economia brasileira pode estar sendo afetada pelo raloin, além da própria cultura brasileira?
Com toda a sinceridade, não sei responder. Mas posso adiantar que, nos Estados Unidos, o raloim implica um movimento comercial que só é superado pelo do Natal...
Quais são os eventos da SOSACI? Por enquanto se restringem a São Luís?
No ano de 2003, divulgamos a SOSACI em vários outros Estados, de onde recebemos apoios e incentivos muito gratificantes. Em São Paulo, no dia 31 de outubro (raloim) houve um Dia do Saci num bar do Butantã, comandado por um saciólogo, o Daniel Brazil. O nome do bar é Jajabar e fica perto da USP. Por outro lado, como uma demonstração de que nossa sociedade valoriza sua cultura popular quando é incentivada, não só em São Luiz do Paraitinga, mas em São Paulo, em Curitiba e em Penápolis foram apresentados na Câmara Municipal projetos propondo a instituição do dia 31 de outubro como Dia do Saci.
Será que não só a figura do saci, como também outros mitos estão em desuso nas cidades, por ela não ser um ambiente propício? Em grandes cidades não podemos sentar ao pé de uma fogueira num rancho e ouvir histórias assustadoras na escuridão... Como levar o folclore para as pessoas e, principalmente para as crianças, das cidades? A SOSACI atua nesse sentido? Pretende atuar?
Você tem razão, é bastante difícil. Na Cidade Grande existem mais videogames, coisas, enfim, que envolvem as crianças de uma classe média com maior facilidade. Mas nós pretendemos, talvez por meio do SESC, levar coisas da SOSACI e da cultura popular para os meninos da periferia. Neste sentido, o Ivan já chegou, inclusive, a ter contato com uma pessoa nesse sentido.
Vocês estão programando algum evento para este ano?
Neste ano, pretendemos conseguir descentralizar as atividades, embora tenhamos a intenção de manter dois grandes eventos em São Luiz um, talvez, em junho, aproveitando ser uma época de festas caipiras, e o outro, naturalmente, no 31 de outubro, o Dia do Saci e seus Amigos. Também é nossa intenção promover mini-eventos, em bares, livrarias, restaurantes etc.
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