Caipiras resgatam histórias do Saci-pererê (Rádio Nederland,
emissora internacional e idenpendente da Holanda)

Railda Herrero e Mario de Freitas
06-11-2008
Em meio a bambuzais, capim e plantações de eucalipto de uma região serrana de São Paulo está São Luis do Paraitinga, entre a Taubaté de Monteiro Lobato e Ubatuba, no litoral norte. Há cinco anos, essa pequena cidade que jura ser berço do saci-pererê abre sua praça principal para uma grande festa popular que comemora o Dia do Saci. Os festejos ocorrem sempre em torno do dia 31 de outubro, quando muitos lugares do país preferem abrir as portas para as bruxas vindas do hemisfério norte.
Nessa região, onde a cultura caipira é bastante preservada, o saci-pererê faz parte do cotidiano de muitos moradores, que conhecem bem as histórias do menino negro de uma perna só, reinando nas matas, pulando e fazendo estripulias.
Com a valorização da cultura caipira, as presepadas do malasartes deixaram de ser coisas dos antigos e ganharam as praças. Elas estavam enfeitadas com artesanatos em chita e nas cores do personagem, o negro e o vermelho.
A cada ano, cresce o número de participantes da festa. A animação desse ano foi a prova de que a cultura caipira parece estar saindo da roça para a cidade.
Turistas vindos da capital e de outras cidades do interior paulista em busca de novas trilhas para cachoeiras limpas visitam a cidade histórica e se aprofundam nas raízes culturais.
São Luís do Paraitinga conta com edifícios bem talhados no século 18, quando o café imperava na região. Em meio às fazendas com casarões brancos e janelas azuis, o escritor Monteiro Lobato recolheu as histórias populares e deu vozes a personagens como o saci-pererê, desde o início do século passado.
Causos
Todos os anos, Geraldo Alves da Silveira, o artesão Geraldo Tartaruga,
vai à festa na praça central de São Luis para contar
as histórias do saci-pererê. Ele tem um causo para explicar como
o saci surgiu na região: "Havia um grupo de dez sacis, que vivia
numa fazenda com um fazendeiro muito mau. Tinha saci de todo tipo, malandro,
bagunceiro, reinador, briguento, como qualquer moleque. Um dia o fazendeiro
desapareceu e os sacis também desapareceram e ninguém sabe pra
onde foram. Com o tempo, começaram a aparecer em estradas, para tropeiros
e cargueiros, que davam pinga para os sacis. Com o tempo, foram acabando as
tropas, foram aparecendo os carros e eles não foram mais aparecendo
nas estradas. Mas continuaram aparecendo para os pescadores, assombrando fazendas,
destruindo criação pequena, que sumia das fazendas, tirava ovo
da galinha que estava chocando..."

Na trilha do perneta
A Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), fundada em 2003, é uma
das promotoras da festa, que conta com as marchinhas do Bloco do Saci, puxado
pelos bonecos criados por um artesão popular: o Zé Paulino e
Angu, um casal gigante com cara de pererê.
Mário Cândido, que presidiu a Sosaci por cinco anos, diz que, apesar do saci ter nascido entre os indígenas do sul do país, tem bastante influência na região porque é onde a cultura caipira está bastante preservada.
Mas o mito não se restringe aos bambuzais da área: está cada vez mais se fortalecendo nacionalmente e vai ser o mascote da Copa de 2014, se depender da campanha da Sosaci.
O grupo de observadores do saci cresce a cada dia e ganha terreno internacionalmente. Já manteve, através do site www.sosaci.com.br contatos até com a Sociedade dos Observadores do Monstro do Lago Ness, na Escócia, que propôs uma parceria com os amigos do perneta.
Mudanças
Nos altos de muitos morros pelados da região de São Luis, ocupados
antes por capim para alimentar o gado leiteiro, florescem agora plantações
de eucalipto, para alimentar duas fábricas de papel não muito
distantes.
Essas mudanças estão afetando o imaginário popular, mas os mitos resistem e as diversas festas locais mostram que não falta entusiasmo na defesa da cultura local.
Guardião da floresta
O saci-pererê congrega elementos de diversas raças, tal como
o povo brasileiro. Tem diferentes formas e faz diferentes traquinagens, de
acordo com a região do país.
Nascido há 200 anos no sul do país, na fronteira com o Paraguai, e de origem guarani, o guardião da floresta incorporou feições africanas e um pito de preto velho com a chegada dos escravos.
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"Já vi um saci"
Clique nos links abaixo e
ouça causos de saci
Geraldo
Tartaruga explica como o saci surgiu na região de São Luís
do Paraitinga
O
artesão conta sobre o aparecimento recente do saci num bambuzal na
beira do rio Paraitinga
O
contador de causos esclarece o mistério das trancinhas em crina de
cavalos
Geraldo
Tartaruga conta como o saci dá lição de moral em criança
ruim e fala das aparições.
Revalorização
cultural
História
do saci gordo que dá lição ao fazendeiro invejoso
Dizem que perdeu uma perna na luta contra o cativeiro e ganhou o piléu
vermelho, emblema da liberdade na Roma antiga, com a chegada dos imigrantes
europeus no Brasil. Em diferentes regiões do país, o saci pode
ganhar outros nomes e outras feições, de acordo com a cultura
local.
Pulando em uma perna só, com destreza, o saci-pererê vai pitando seu cachimbo, aprontando estripulias e assustando os moradores do interior brasileiro, que sempre juram ter visto o menino safado.
Entre suas brincadeiras favoritas está fazer trancinhas na crina de cavalos, roubar tabaco de cachimbos, embaraçar linhas, azedar leite, gorar ovos, espantar animais. O menino brincalhão foge ou pode aparecer no meio de um redemoinho. Nem bom nem mau, apronta muito e pode até dar lições de moral, conforme Geraldo Tartaruga conta no causo dos dois irmãos.
Dia do Saci
Enquanto tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para tornar nacional
o Dia do Saci, o fenômeno vai ganhando o país, pulando em uma
perna só.
A data, já comemorada oficialmente em muitos municípios, será 31 de outubro, para se contrapor ao Dia das Bruxas, ou Halloween, que se espalha com apoio das escolas de inglês no país.
A idéia de uma data comemorativa partiu da Sosaci para resgatar mitos locais e difundir o folclore. Com manifestações culturais nesse dia, o grupo quer sensibilizar pais e educadores sobre a necessidade de redescobrir as tradições populares, garantindo alternativas lúdicas e divertidas às crianças e aos jovens, frente à invasão cultural com cara de bruxas e abóboras monstruosas. Os integrantes do grupo dizem que "raloim só se for com carne seca".
Tags: cultura
poular, Dia
das Bruxas, folclore,
Saci-pererê,
Sosaci,
São
Luis do Paraitinga, São
Paulo
Artigos relacionados:
Diálogo
aberto entre repentistas
Opinião(ões):
Mouzar Benedito, 14-11-2008 - Brasil
Parabéns, Railda e Mário.. A reportagem de vocês foi muito boa e mostra bem que há um movimento real de defesa da nossa cultura. E incluir as histórias do Geraldo Tartaruga foi enriquecedor.
Janette Lap, 13-11-2008 - Holanda
Maravilhoso programma, gostei muito das histórias contadas pelo seu Geraldo.
Oswaldo Macedo, 11-11-2008 - Brasil
A REPORTAGEM DA RN FOI MUITO OPORTUNA
AO MOSTRAR UM POUCO DA NOSSA CULTURA CONTRAPONDO A A ACULTURAÇÃO
TRAZIDA PELOS CURSOS DE INGLÊS, COLOCANDO O DIA DAS BRUXAS COMO UMA
DATA IMPORTANTE DENTRO DA NOSSA CULTURA CAIPIRA.
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