O Design do Saci - Revista Brasileira de Design, ed. 21
- Set 2009
O design do Saci
Daniel Brazil


Em janeiro de 1917 o escritor Monteiro Lobato, nas páginas do Estado
de São Paulo, propôs uma pesquisa sobre o saci. Pedia que as
pessoas enviassem cartas narrando ocorrências, episódios, "causos"
sobre o mítico personagem.
Monteiro Lobato não sacou a história do nada.
Intuiu um grande personagem a partir de relatos esparsos, muito disseminados
no Vale do Paraíba (SP), onde nasceu. O duende pretinho de uma perna
só, no entanto, é um típico exemplo de miscigenação,
reunindo elementos de várias culturas em sua representação.
Os guaranis (1) contam histórias de um pequeno índio meio mágico,
com o poder de se tornar invisível, que vive nos bosques e protege
os animais, escondendo-os dos caçadores. Seu nome é Cambai ou
Cambay, e curiosamente ele tem uma perna torta, e anda manquitolando. Vem
daí a expressão cambaio, que em português significa manco.
É provável que a tradição guarani tenha sido adotada
pelos escravos de origem africana. Para justificar objetos desaparecidos e
pequenas traquinagens das crianças, nada melhor que um duende nativo
invisível. Processado pela tradição oral ele se tornou
negro, e passou a ser descrito com o barrete frígio vermelho, símbolo
da liberdade, adotado pelos republicanos franceses que lutaram pela queda
da Bastilha, em 1789.
América, África e Europa. Estava pronta a mistura capaz de definir
um símbolo da nova cultura brasileira. Monteiro Lobato, grande nacionalista,
é considerado com justiça o maior criador de sacis do século
XX. Milhões de brasileiros leram ou ouviram suas histórias,
e difundiram as peripécias do pequeno unípede nas conversas
em torno da fogueira, nas salas de aula ou na cabeceira da cama. Nos anos
1960, o desenhista Ziraldo lançou sua versão de Saci Pererê
em quadrinhos, com grande sucesso, até hoje lembrado.
A explosão midiática ocorrida a partir dos anos 1960, com a
expansão da TV e a globalização dos meios de comunicação,
fez com que uma nova onda cultural, globalizante e padronizada, invadisse
o terreno da fantasia infantil com novos mitos. Fadas, duendes, dragões,
elfos e elementais passaram a ocupar o lugar do saci e outros mitos brasileiros,
como a mula-sem-cabeça, o boitatá e a iara, nossa sereia das
águas doces.
No final dos anos 1990 um grupo de pessoas, preocupadas com a quase extinção
do saci, criou a Ancsaci, Associação Nacional dos Criadores
de Saci. Sediada em Botucatu, e tendo como patrono Monteiro Lobato, partia
do princípio de que cada vez que você conta uma história
de saci para uma criança, você está criando um novo saci,
e assim ele se perpetua.
O movimento se expandiu nos meios acadêmicos, propícios a embates culturais. Em Botucatu, virou Festival Nacional do Saci, que acontece todo mês de agosto. Em outras cidades foram criados núcleos de defesa do folclore, envolvendo educadores, artistas e simpatizantes. Várias escolas, ocupadas pela invasão do Halloween, de origem americana, fizeram ações de recuperação do saci, com bons resultados.
Em 2003 foi fundada a Sosaci - Sociedade dos Observadores de
Saci -, em São Luiz do Paraitinga, que promoveu diversas ações
de impacto. O município criou o Dia do Saci, sendo seguido por outros,
inclusive a capital do estado, São Paulo. Estabeleceu-se o dia 31 de
outubro (data do Raloim gringo) como data de combate aos estrangeirismos,
simbolizado pelo simpático perneta. Seus sócios acham que criar
saci significa aprisioná-lo, por isso defendem a observação
em seu habitat natural.
Mas o que isso tem a ver com design, objetivo principal desta revista? Primeiro,
obviamente, por se tratar de um embate cultural, entre uma criação
autóctone e valores disseminados sem critério pelos meios de
comunicação.
Segundo, porque o saci vem sendo cogitado como símbolo da Copa do Mundo
de 2014, sediada no Brasil. Grupos se mobilizam pró e contra, outros
personagens aparecem, como o Pelezinho, de Mauricio de Souza. Uns dizem que
seria ridículo um personagem deficiente representar o futebol, e argumentam
que seria melhor adotá-lo nas Paraolimpíadas.
Há nesse raciocínio um grande erro conceitual. Ao saci, não
falta uma perna. Na verdade, ele tem uma perna! Não ocorre a ninguém
que uma cobra ou um peixe sejam seres "defeituosos" por não
terem pernas. Ao saci, com seu design biológico perfeitamente adaptado
ao meio em que vive, não falta nenhum membro. Ele se movimenta com
mais agilidade e eficiência num bambuzal, onde se reproduz, que qualquer
ser humano.
Desnecessário lembrar quantas criações exemplares do
design se firmam sobre apenas um pé. Abajures, taças, pedestais
e amplificadores são exemplos de elegância e precisão.
Muitos fotógrafos preferem o monopé ao tripé, por sua
leveza e praticidade. Cadeiras profissionais sofisticadas, como as de dentista
ou de barbeiro, se assentam sobre um único e suficiente pé.
Em um artigo publicado na revista Experimenta (2), o designer italiano radicado
em Madrid, Pierluigi Cattermole, justifica conceitualmente a criação
de uma luminária de leitura com a ilustração de um curioso
ancestral do saci, encontrada por ele num livro de História. Um ser
estranhíssimo visto pelos primeiros exploradores do extremo sul do
continente americano no século XVII. Foi chamado de patagon, "grande
pata, pezão", e usava o pé para se proteger dos raios solares.
Um saci hermano, típico ancestral do nosso saci, mais uma prova documental de que ele é de origem sul-americana. Nosso caro Pierluigi, estudioso da teoria do design, demonstra, talvez sem o saber, ser um legítimo criador de sacis. Ou observador, como querem os bravos militantes da Sosaci.

Comentários
Almir Almas
2009-09-20 08:48:30
Daniel, muito bom. muito bom. o saci é perfeito.
Carlos Mauro
2009-09-20 08:13:19
Muito bom o artigo, Daniel. Essa história de que o saci é deficiente
por que tem um só pé é uma coisa de louco... afinal,
por definição, saci tem um pé só...se tivesse
dois, aí é que seria deficiente... Quem inventou essa história
só pode ser ruim da cabeça ou doente... do pé!
Cachoeira
2009-09-19 09:49:09
Grande Daniel, maravilha de texto, viva o Saci, e em tempos de Dunga com sua
ode aos pernetas, o Saci, com certeza, tal como os diversos acrobatas da bola
que encontramos pelas ruas com suas intermináveis embaixadas, será
o melhor mascote para 2014, roguemos aos designers que criem um belo Saci
boleiro!!! Gde Abs.
Medina
2009-09-18 21:43:51
Dá a dez pro Saci!
Neuzza Pinhero
2009-09-18 21:15:29
seu texto vem-que-vem, feito pluma no pulso do vento leve Sempre fico tão
feliz quando leiomeenleio sim, sim, como diz o Fábio, viva o Saci,
a Medusa, Shiva e todo o panteão dos mitos, Origem! abçs admirados!
Fábio Brazil
2009-09-18 18:40:23
Daniel, sempre uma delícia ler seus textos - com uma capacidade de
pesquisar o "inútil" de dar inveja à Ciêcia
Inglesa. Só um reparo, sob o olhar dos católicos, às
cobras, faltam pernas e braços, perdidos pela ancestral Serpente lá
no Édem. Por isso, católicos morrem de medo delas, que sob essa
ótica, buscariam vingança, claro. Você tem toda razão!
O Saci tem o número de pernas que precisa ter, como Shiva tem o número
de braços que precisa ter e a Medusa os cabelos que merece. abs, Fábio.
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