Mais Cruzeiro - [ 08/07 ]

Histórias sobre o saci-pererê ainda fazem parte do imaginário popular
Daniela Jacinto

Notícia publicada na edição de 08/07/2008 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 5 do caderno B - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

ERICK PINHEIRO

Campanha quer que o negrinho travesso, um dos maiores símbolos folclóricos do país, vire mascote da Copa
Dizem que galo que canta fora de hora é porque o saci está perto. Ele é assim: esconde as coisas da gente, troca o sal pelo açúcar, faz tranças nas crinas dos cavalos... Não tem jeito, por onde esse moleque passa dá para notar suas traquinagens. Como uma criança levada, o saci-pererê se diverte aprontando mil e uma travessuras. O que poucos sabem é que ele também defende a natureza, ao fazer os caçadores se perderem na mata para proteger os animais. Então não tem essa de que ele é um ser do bem ou do mal: é como qualquer um de nós, que tem seus momentos melhores e outros nem tanto. Como todo ser etéreo (as fadas e duendes são outros exemplos), o saci não tem corpo físico, por isso pode ser visto em diversos tamanhos e, quando morre - dizem -, se transforma em cogumelo. Tem quem crie sacis, e também quem os cace. Há ainda os que dão café para ele e outros que o temem. O que não faltam são histórias sobre o negrinho de uma perna só, apesar da vida na cidade tê-lo tornado um personagem distante do dia-a-dia das pessoas.

Considerado um dos maiores símbolos folclóricos do país, o saci está se tornando alvo de uma campanha nacional - que pretende mobilizar a população -, para que ele vire mascote da Copa de 2014, quando a competição será realizada no Brasil. E pensando bem, não seria melhor do que o Cauê (aquele sol) dos Jogos Panamericanos?
Associar o saci ao futebol também não é estranho. O Internacional de Porto Alegre tem o negrinho como um símbolo: o saci é aquele que gosta de armar ciladas contra as pessoas, coisa que no futebol os colorados sempre gostaram de fazer contra os adversários, consta no site do Inter.
A idéia da campanha para a Copa pode ser encontrada na internet e é defendida pelo jornalista e escritor Mouzar Benedito, que elenca diversos argumentos para a eleição do saci.

Esse moleque peralta anda tão falado ultimamente que rendeu algumas polêmicas aqui mesmo em Sorocaba. A idéia foi criar o Dia do Saci na cidade, na mesma data em que é comemorado o Halloween, no dia 31 de outubro. O que diversos estudiosos defendem é que deveriam reforçar nessa data a cultura nacional e não permitir com que as crianças incorporem algo que faz parte da tradição de outros países, como os Estados Unidos. A data quase foi criada na cidade. Aprovada pelos vereadores em 2006, não chegou a ser sancionada pelo prefeito, que teria sofrido pressões, inclusive por parte da bancada evangélica da Câmara Municipal, conforme noticiado pelo jornal Cruzeiro do Sul na época.
Para saber mais sobre o paradeiro do saci-pererê, a reportagem do Mais Cruzeiro foi atrás de histórias que ainda fazem parte do imaginário popular e também entrevistou amantes da cultura popular que, poeticamente, mantêm viva essa lenda brasileira.

Inquérito sobre o saci
Não é bom ter cisco no canto da casa, que o saci gosta muito. Certa vez, em uma casa, havia cisco no canto. Foi então que o lixo começou a remexer, remexer, e as pessoas da casa viram o saci sair pulando do meio.
Esse é um trecho do relato do sorocabano Luiz Fleury, que está entre as diversas histórias publicadas em 1918 no livro O Sacy-Pererê, Resultado de un Inquérito. Obra compilada por Monteiro Lobato, ela reúne cartas enviadas a partir da proposta do escritor, que em 1917 abriu um inquérito sobre a existência do Saci-Pererê, e pediu, através do jornal O Estado de São Paulo, que os leitores enviassem cartas contando suas experiências sobre o mito. Foram tantas as correspondências recebidas, que no ano seguinte o livro foi editado para divulgar esse material.
Em janeiro de 2006, o historiador e folclorista Carlos Carvalho Cavalheiro, de Sorocaba, propôs, através de convites por emails, a reabertura do Inquérito e sugeriu que as histórias fossem, de alguma forma, publicadas, até mesmo para manter o mito vivo na memória das pessoas. O objetivo é recolher as histórias sobre o saci que ainda povoam o imaginário das pessoas. Será um diagnóstico sobre como, tantos anos depois, as pessoas lidam com a figura do saci, justifica. Interessados em participar do inquérito podem mandar suas histórias para o site http://www.crearte.com.br/saci.htm.

Membro da Sociedade dos Observadores do Saci, Carlos explica que o pererê tem elementos da cultura indígena e africana. O fumo simboliza, para os negros, a experiência de vida. O gorro vermelho a liberdade, já que em alguns países onde havia a escravidão, o gorro sinalizava quando o negro estava livre. Mas tudo isso são hipóteses, observa.

Pegadas de saci
Questionado se é um criador de saci, Carlos Carvalho esclarece: Não tenho espaço pra criar saci em casa, seria uma judiação... E depois ia ficar tudo bagunçado, então eu só observo. O pererê é um tipo de saci, mas existem outros. Uma vez, eu e minha esposa estávamos na fazenda Piraí, em Itu, e conversando com um guia de turismo da região: ele falou que tinha uma foto que a gente não ia acreditar. Aí ele mostrou uma pegada que encontrou na mata: um pezinho como se fosse de uma criança, e dava pra perceber que era um pé só. No meio dava para notar que também tinha pegada de onça, e era em um lugar onde o guia disse não viver ninguém naquele pedaço. Foi impressionante!.

Criação de sacis
O músico e compositor Válter Silva, que também é membro da Sociedade dos Observadores do Saci e ainda participa da Associação Nacional dos Criadores de Saci, mantém em sua casa, juntamente com a esposa Elaine Buzato, uma coleção de sacis. São mais de noventa objetos, feitos de todo tipo de material como madeira, argila, pano e vidro. Válter já tentou criar sacis, mas ainda não deu certo. Conta ele, que certa vez confeccionou diversos gorros vermelhos e colocou nos bambus perto de sua casa. Os sacis nascem assim, nos bambus. Isso é criar saci, quando você imagina que ali tem um, explica. Depois basta esperar sete anos. Todos os sacis nascem com sete anos de idade e morrem aos 77, ensina. Válter conta que tem uma peneira para caçar sacis. A peneira certa tem de ter uma cruz no meio. Depois, é só esperar um redemoinho e lançar a peneira. Isso tudo tem de ser à noite, porque o saci gosta do escuro. Aí, depois de lançada a peneira, você pode colocar uma garrafa escura no cantinho, bem com cuidado, para não perder o saci. Ele pensa que estará protegido e entra na garrafa. Depois basta fechar e pronto! Esse é o único jeito de pegar o saci, orienta. Aliás, dizem que até hoje ninguém conseguiu essa façanha. Isso porque as pessoas não o enxergam na garrafa escura e abrem pra ver se ele está ali, e então é nessa hora que ele escapa. Se um dia alguém conseguir tirar seu gorro, o saci fará de tudo para tê-lo de volta, inclusive realiza pedidos, e a pessoa pode pedir o que quiser, orienta Válter.

Café para o saci
Válter Silva lembra ainda que sua avó tinha o costume de dar café para o saci. Todos os dias o saci ia à beira do fogão à lenha e minha avó conversava com ele. Dava bom dia, preparava seu café e, com a brasa, acendia seu cachimbo. Depois disso, ele ia embora. Minha mãe também não me deixava assobiar à noite por nada no mundo, porque isso chama saci.

No cangote
Jacob Rusconi, que mora em um sítio em Sorocaba, afirma que nunca viu o saci, mas já sentiu sua presença. Ele está sempre por trás da gente arrumando encrenca. Sempre no domingo à tarde que o saci vem e monta no cangote da gente. Eu estou tentando caçar o saci, mas ainda não deu certo.

Saci na janela
Morador de Itu, o eletricista Vicente Lázaro Deodoro, hoje com 69 anos, afirma que lembra bem, como se fosse hoje, o dia que viu um saci, entre os 7 e 8 anos de idade. Isso realmente aconteceu e ninguém tira da minha mente. Eu morava em Bragança Paulista, na fazenda São João. Tinha um cabelo meio comprido, que minha mãe costumava pentear para ir à escola. Mas toda noite eu escutava alguém assobiar uma música bonita na janela do meu quarto e eu perdia o sonho. Um dia eu contei isso pra minha mãe e ela orientou a fechar a janela. E falou que se batessem, para não abrir. E aconteceu do jeito que ela falou, como a janela estava fechada, escutei alguém bater. Quando abri a janela, lá estava um moleque preto que nem carvão, com dentes bonitos e boné na cabeça. Nesse dia, os cachorros latiram a noite inteirinha, os cavalos correram pelo pasto, relinchando. Deu um arrepio... Na manhã seguinte, minha mãe foi pentear meu cabelo e estava todo trançado. Tenho certeza absoluta que eu vi um saci. Agora que mudei para Itu, às vezes escuto o assobio, mas não dou bola porque já conheço a peça


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